Precisamos falar sobre saúde mental: Depressão afeta mais de 300 milhões no mundo

A depressão será o tema de maior destaque a ser tratado no Dia Mundial da Saúde, coordenado pela OMS e lembrado no próximo dia 7 de abril.

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Syolacam Getty Images -  Casos de depressão aumentam ao redor do mundo.

O número de pessoas que vive com depressão está aumentando – 18% entre 2005 e 2015, segundo dados divulgados hoje (23) pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A estimativa é que, atualmente, mais de 300 milhões de pessoas de todas as idades sofram com a doença no mundo. O órgão alertou que a depressão é a principal causa de incapacidade laboral no planeta e, nos piores casos, pode levar ao suicídio.

A depressão será o tema de maior destaque a ser tratado no Dia Mundial da Saúde, coordenado pela OMS e lembrado no próximo dia 7 de abril.

“A depressão é diferente de flutuações habituais de humor e respostas emocionais de curta duração aos desafios da vida cotidiana. Especialmente quando de longa duração e com intensidade moderada ou severa, a depressão pode se tornar um sério problema de saúde”, destacou a organização em comunicado. Os dados mostram que quase 800 mil pessoas morrem em razão de suicídios todos os anos, a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.

A organização também alertou que, apesar da existência de tratamentos efetivos para a doença, menos da metade das pessoas afetadas pela condição no mundo – e, em alguns países, menos de 10% dos casos – recebe ajuda médica. As barreiras incluem falta de recursos, falta de profissionais capacitados e o estigma social associado a transtornos mentais, além de falhas no diagnóstico.

“O fardo da depressão e de outras condições envolvendo a saúde mental está em ascensão em todo o mundo”, concluiu a OMS, ao cobrar uma resposta compreensiva e coordenada para as desordens mentais por parte de todos os países-membros.

Fonte: http://www.huffpostbrasil.com/2017/02/23/depressao-afeta-mais-de-300-milhoes-e-numeros-estao-aumentando-a_a_21720258/

Por: Paula Laboissière/ Agência Brasil

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Três sintomas de transtorno bipolar sobre os quais ninguém quer falar

Os três sintomas abaixo representam o lado do transtorno bipolar que todos sabemos estar lá, mas raramente queremos deixar os outros saberem que existe.

Eu sei como é importante proteger a reputação do transtorno bipolar para o público em geral. Não queremos que as pessoas pensem que somos perigosos, assustadores e malucos em quem não se pode confiar. Mas acho que precisamos encarar o fato de que algumas flutuações de humor realmente causam estes comportamentos que queremos esconder embaixo do tapete. Os três sintomas abaixo representam o lado do transtorno bipolar que todos sabemos estar lá, mas raramente queremos deixar os outros saberem que existe. Isso é apenas uma opinião, claro, mas estou realmente interessada em saber se todos sentem o mesmo.

agressivo1º – Comportamento perigoso, agressivo e violento no transtorno bipolar

Trabalho com pais e parceiros de pessoas com transtorno bipolar. Na maioria das situações, as pessoas que estão em um episódio forte de mania ansiosa podem ser perigosas, agressivas e violentas. Agressão física e uso de armas não são incomuns. Muitos homens vão presos por este tipo de comportamento quando eles, na verdade, precisam de ajuda psiquiátrica. As pessoas, tanto homens quanto mulheres, que são educadas e gentis quando estão bem, ficam com uma força sobre-humana e agressivas – arrancam uma pia da parede, socam janelas – jogar cadeiras e outros comportamentos perigosos não são incomuns.

Famílias e parceiros sofrem em silêncio pois ficam muito assustados de contar a qualquer pessoa sobre o que realmente acontece em casa.

Eu tenho pensamentos violentos e homicidas quando a mania ansiosa está em cena. Eu costumava perseguir carros se o motorista me fechasse ou fizesse uma cara estranha. Não é o meu objetivo assustar ninguém que está lendo este texto. Meu objetivo é que sejamos honestos sobre estes sintomas do transtorno bipolar que ficam escondidos embaixo do tapete.

Uma solução é se cuidar. Pessoas com transtorno bipolar não têm esses sintomas a não ser que tenham flutuações de humor. Prevenir estas flutuações de humor ajudará a prevenir este tipo de comportamento.

images (25)2º Psicose em transtorno bipolar

Eu tenho transtorno bipolar de ciclo rápido tipo II, com características psicóticas. Eu tive sintomas de psicose não diagnosticados dos 19 aos 31 anos, quando finalmente fui diagnosticada. Tive alucinações durante toda a minha vida adulta. O que me assusta é que ninguém, ninguém mesmo, me ensinou sobre a psicose quanto fui diagnosticada. Era como se os sintomas não existissem. Quando entendi o nível da minha psicose, fiquei horrorizada de ter vivido tanto tempo com isso. Meus sintomas eram, em sua maioria, alucinações visuais e delírios paranóicos. Eu não sabia que os outros não as tinham também! Se você tem transtorno bipolar tipo I, tem 70% de chance de ter psicose quando estiver em um episódio intenso de mania. Essa psicose pode ser bizarra e imitar a esquizofrenia. A diferença? Pessoas com transtorno bipolar só têm psicose durante a mania ou a depressão. Não há psicose fora destes dois estados de humor. Se uma pessoa tem psicose entre estes episódios, isso é chamado de transtorno esquizoafetivo. Você ou alguma pessoa próxima tem psicose? Se o transtorno bipolar estiver envolvido, a psicose pode estar envolvida também.

cognitivo3º Disfunção cognitiva em transtorno bipolar

Muitas pessoas acham assustador. Já temos transtorno bipolar, isso quer dizer que temos problemas de memória também? Talvez. Disfunção cognitiva de perda de memória, esquecimento de compromissos, não lembrar informações e “nevoeiro cerebral” durante certos episódios é muito comum! Se você tem transtorno bipolar, você provavelmente já sentiu o cérebro lento, que é comum na depressão. Se você tem mania, você provavelmente tropeçou nas palavras, disse coisas que não queria dizer e teve problemas em organizar seu pensamento.

Meus sintomas cognitivos me visitam diariamente. Não sou capaz de me lembrar datas e números e preciso de ajuda com calendários e horários marcados. Os meus sintomas pioraram depois de terapia intensiva que tive para depressão severa. É algo que acho estressante, mas fácil de lidar. Quero que sejamos sinceros em relação a problemas cognitivos. Essa é a única maneira com a qual podemos conseguir ajuda! O meu tende a estar presente o tempo todo, mas piora com flutuações de humor. Um exemplo perfeito disso – eu tenho que colocar este post no ar a meia noite do dia em que eu posto no blog. Eu fiquei me lembrando disso o dia todo ontem, mas mesmo assim, fui dormir sem postar a tempo. Tenho que viver com esses sintomas e mesmo que algumas coisas sejam esquecidas, eu consigo controlar a maioria dos problemas menores de memória com um bom sistema de suporte.

Aqui está a boa notícia – sim, há uma boa notícia!

Transtorno bipolar é uma doença de episódios. Todos temos todos os sintomas durante as mudanças de humor. Isso quer dizer que somos ESTÁVEIS quando não estamos nestas mudanças. Os sintomas listados acima vão embora quando a doença é controlada com sucesso. Isso pode exigir um monitoramento diário para os que tem sintomas diários. Outros, que têm longos períodos de tempo entre as mudanças de humor, podem até esquecer que estes sintomas já existiram. Este é o motivo de termos um método de controle que reconheça os comportamentos perigosos, agressivos e violentos, psicose e disfunção cognitiva assim que isso começar.
Eu sei que queremos proteger nossas reputações em relação a essa doença, e não queremos ser vistos como diferentes ou malucos, mas eu peço que entre a nossa comunidade, sejamos brutalmente honestos sobre o que realmente acontece com aqueles de nós que têm esta doença. É o único jeito de evitar estes sintomas e mantê-los longe para sempre.

julieSobre a autora: Julie A. Fast - É a autora dos best-sellers Loving Someone with Bipolar, Take Charge of Bipolar Disorder and Get it Done When You’re Depressed. Ela é uma premiada colunista da revista BP (Revista Transtorno Bipolar) e tem um dos principais blogs sobre transtorno bipolar na internet. Julie é  especialista em manejo de transtorno bipolar no site da Oprah e Dr. Oz www.ShareCare.com. Julie é não somente uma perita em ajudar aqueles que são afetados pelo transtorno bipolar e pela depressão, foi diagnosticada em 1995 e com sucesso controla a doença com medicamentos e estratégias descritas em seus livros. Julie sabe mais que ninguém sobre viver e amar alguém com transtorno bipolar dentro de sua própria vida e ajuda os membros das famílias, parceiros e profissionais de saúde a compreender e apoiar aqueles que têm o transtorno. Ela é uma grande palestrante e educadora, apaixonada por mudar a maneira como o mundo vê e maneja os transtornos de humor.

Tradução livre: Equipe ABRATA

Fonte: http://www.bphope.com/blog/three-bipolar-disorder-symptoms-no-one-wants-to-talk-about/

 

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Fechar leitos e não prevenir doenças mentais é tapar sol com peneira

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Por Claudia Collucci

Há três anos, um estudo internacional da OMS (Organização Mundial de Saúde), chamado “Megacity Mental Health Survey”, apontou a região metropolitana de São Paulo como a campeã mundial de problemas mentais, com cerca de 30% da população sofrendo de algum problema psiquiátrico.

Entre as perturbações mais comuns estavam ansiedade, mudanças comportamentais e abuso de substâncias químicas. A alta incidência foi atribuída à alta urbanização associada às privações sociais.

Lembrei-me deste trabalho ao acompanhar a manifestação contra o possível fechamento do Caism (Centro de Atenção Integral a Saúde Mental), ligado à Santa Casa de São Paulo, em razão da grave crise financeira que atinge a instituição.

Ainda que o governo estadual negue que o fechamento vá acontecer, a comunidade psiquiátrica e as famílias de pacientes estão aflitas com essa possibilidade. Com toda a razão. O Caism é um tipo de serviço que deveria ser multiplicado, jamais extinto.

Inaugurado em 1998, é um dos poucos no país que conta com diversos níveis de atendimento, como ambulatório, hospital-dia, internação integral e emergência. São 10 mil consultas ambulatoriais por mês, 12 mil consultas de emergência por ano e mais de cem internações por mês em seus 43 leitos. É um dos maiores centros de psiquiatria do Estado, uma área com muitos gargalos em todos os níveis de assistência.

Não é de hoje que o país vive um apagão na saúde mental. Por um lado, são louváveis os esforços feitos para dar fim ao modelo de manicômios em que os doentes eram afastados de suas famílias e submetidos a verdadeiras sessões de tortura que os levavam à morte ou os deixavam com sequelas ainda piores que a doença mental.

Por outro lado, a atual política nacional de saúde mental não tem conseguido responder à crescente demanda por atendimento psiquiátrico, muitos com necessidade de internação. Ela defende o atendimento dos pacientes fora dos hospitais, com ênfase na reabilitação psicossocial. Para isso, foram criados espaços como o Caps (Centro de Atendimento Psicossocial), as casas de acolhimento transitório (CATs) e as casas terapêuticas. Em casos de emergências, também são usados leitos em hospitais gerais. Muito já foi feito, mas ainda há muito, muito o que fazer.

Uma rápida visita ao centro de São Paulo, na região chamada de Cracolândia, dá a dimensão do problema. Na noite de sexta passada, saindo do trabalho, fui surpreendida por um homem maltrapilho, visivelmente surtado. Chovia, o trânsito estava parado e ele começou a esmurrar o carro. Não satisfeito, riscou a lataria. Fui tomada por um misto de raiva, de medo e de pena. Foi um baita prejuízo, mas o carro tem conserto. E essas pessoas? Com quem elas podem contar? Quais as chances de reabilitação?

Muitos desses moradores de rua com doenças mentais acabam mortos ou presos. Há quem diga que os presídios já são os novos manicômios. Ou seja, só mudaram de endereço. Concentram amontados de doentes mentais sem nenhuma assistência psiquiátrica.

A verdade é que o país pouco investe na prevenção e no tratamento precoce dos transtornos mentais. Em entrevista ao site do médico Drauzio Varella, o psiquiatra Valentim Gentil, dá algumas dicas de como isso é possível. Pessoas com predisposição para problemas psiquiátricos (que têm casos de doença mental na família), precisam passar longe das drogas porque elas podem servir de gatilho. Também devem evitar remédios para emagrecer e estimulantes porque podem desencadear ataques de pânico.

Mulher que continua deprimida três dias depois do parto, se não receber atendimento eficaz, corre o risco de desenvolver um quadro grave de psicose. Segundo Gentil, outro exemplo é a agudização dos quadros maníacos. Se forem tratados nas primeiras 48, 72 horas, a crise poderá ser controlada em duas ou três semanas sem necessidade de internação hospitalar.

Cuidar da prevenção desses problemas ou evitar que eles se agravem é uma das formas responsáveis de evitar a necessidade de hospitais psiquiátricos. Só fechar essas instituições e achar que o problema está resolvido, é tapar o sol com a peneira.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudiacollucci/2016/10/1823734-fechar-leitos-e-nao-prevenir-doencas-mentais-e-tapar-sol-com-peneira.shtml

Publicado em 18/10/2016

Autor: Claudia Collucci – repórter especial da Folha, especializada em saúde. Autora de “Quero ser mãe” e “Por que a gravidez não vem?” e coautora de ‘Experimentos e Experimentações’.

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Depressão: Questionar para melhorar – perguntas certeiras contra a depressão

Por Daniel Martins de Barros – Psiquiatria

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Não lembro onde li, acho que foi numa resenha de uma coleção de filosofia, há muitos anos, que os filósofos eram os chatos essenciais, que paravam para fazer perguntas quando o esperado seria seguir em frente. Chatos, sim, porque parar para pensar dá trabalho, e o mundo tem pressa demais para isso. Mas às vezes essa pressa cobra seu preço, e uma vida não refletida, vivida no automático baseada em pressupostos superficiais e recheada de pensamentos automáticos leva a profundas crises – quando não ao adoecimento mental.

Atribui-se a Sócrates, o pai da filosofia ocidental como a conhecemos, o desenvolvimento de uma técnica de investigação dos pensamentos, profunda e sistemática, que ficou conhecida como questionamento socrático. Em seus diálogos, registrados por seu aluno Platão, vemos como ele parava para conversar com os cidadãos e, interessando-se verdadeiramente por suas opiniões, aprofundava progressivamente as perguntas para chegar aos fundamentos daquelas crenças. Frequentemente o interlocutor acabava gaguejando, notando que suas opiniões não tinham qualquer fundamento sólido.

Para uma corrente importante da saúde mental, é justamente a presença de pensamentos automáticos, com fundamentos distorcidos, que nos levam a quadros depressivos. Diante de uma adversidade qualquer, fruto do acaso, é comum personalizarmos a questão, automaticamente interpretando-a como um sinal de nossa incompetência que nos condena inexoravelmente ao fracasso. Um relacionamento naufragou? “Também, eu tenho dedo podre!”, pode vir à mente automaticamente. O chefe não deu elogiou o trabalho? “Claro, eu nunca vou conseguir agradar nenhum chefe mesmo!”, e assim por diante. E pior, sem nos darmos conta disso.

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Será que o questionamento socrático, tão útil na investigação filosófica sobre a vida, poderia ajudar nessa tarefa? Desmascarar crenças infundadas sobre nós mesmos combateria sintomas depressivos?

Um estudo americano acaba de comprovar que sim.

Cinquenta e cinco pacientes com sintomas depressivos foram tratados por terapeutas cognitivos durante dezesseis semanas, focando especificamente na quantidade de perguntas socráticas que eram feitas nas sessões. Mesmo depois de corrigir os resultados levando em conta características individuais dos pacientes e da aliança terapêutica estabelecida, os cientistas notaram que quanto mais eram questionados numa sessão, melhor os pacientes se apresentavam na semana seguinte. Ouvir perguntas como: “Passar por uma demissão é sempre uma condenação?”, “Você consegue pensar em situações em que terminar um relacionamento seja algo bom?”, “Ganhar menos dinheiro é necessariamente um sinal de incompetência?” e assim por diante, ajudou as pessoas a verem os quadros de suas vidas de maneira mais ampla. E essa é uma habilidade que parece não se perder com o tempo, ajudando a recuperação também no longo prazo.

Talvez não seja por acaso que o próprio Sócrates já advertia, milênios atrás, que a vida não refletida não valia a pena ser vivida. Vale a pena refletir, não?

Braun, J., Strunk, D., Sasso, K., & Cooper, A. (2015). Therapist use of Socratic questioning predicts session-to-session symptom change in cognitive therapy for depression Behaviour Research and Therapy, 70, 32-37 DOI: 10.1016/j.brat.2015.05.004

Fonte: http://emais.estadao.com.br/blogs/daniel-martins-de-barros/questionar-para-melhorar-perguntas-certeiras-contra-a-depressao/

Data: 15/11/2016

 

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Depressão entre jovens

Porcentagem de adultos jovens e adolescentes com o problema saltou de 8,4% para 11,3%
adolescenteAutor: Jairo Bouer | Psiquiatra

Novos dados divulgados nas últimas semanas mostram que a saúde mental dos adolescentes deve ser foco importante das autoridades nos EUA nos próximos anos. Depressão, problemas com uso de substâncias e taxas de suicídio estão em alta.

O primeiro estudo, publicado no periódico Pediatrics, revela que entre 2005 e 2014, a porcentagem de adolescentes e adultos jovens que já enfrentaram um episódio de depressão saltou de 8,4% para 11,3%. A cada ano, um em cada dez deles vai enfrentar um episódio depressivo.Os pesquisadores da Universidade de Washington e da Escola de Saúde Pública de Johns Hopkins Bloomberg, em Baltimore, levantaram dados da Pesquisa Nacional de Uso de Drogas e Saúde, investigação anual do governo americano com dados de 172 mil adolescentes (de 12 a 17 anos) e de 178 mil adultos jovens (de 18 a 25 anos). As informações foram divulgadas pelo site Live Science e pelo jornal britânico Daily Mail.Entre os adultos jovens, a faixa em que se nota um aumento mais nítido da depressão está entre 18 e 20 anos. Entre os adolescentes, o crescimento mais significativo aconteceu a partir de 2011. Em alguns Estados, a porcentagem de jovens com história recente de depressão atingiu 14%.As taxas foram mais significativas entre as garotas, sobretudo nas estudantes negras. Especialistas acreditam que o crescimento do ciberbullying pode ser uma das raízes do problema. Não estar na escola, estar desempregado, morar em um lar sem um dos pais, ou sem os dois, e, ainda, o abuso de substâncias apareceram como fatores de risco para a depressão.

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Dependência. Por falar em drogas, novo relatório do ministro da Saúde dos EUA revelou que um em cada sete americanos enfrenta hoje problemas com dependência de álcool, cigarro ou drogas. Isso implica em 21 milhões de pessoas, mais do que o número de pacientes que enfrenta o câncer naquele país. Só 10% têm acesso a tratamento. As informações são do Daily Mail.

Além dos impactos para a saúde física, o abuso de substâncias tem peso importante para a saúde mental, e é uma das principais causas para os transtornos psiquiátricos. Em um momento em que o país adota posturas mais liberais em relação ao consumo de maconha, com vários Estados assumindo legislação mais flexível, os números podem mostrar a necessidade de uma mudança cultural em relação às drogas, sobretudo nos casos em que existe padrões de abuso e dependência.

Entre os jovens, quanto mais cedo o contato com as substâncias, maiores os riscos de padrões mais complicados de consumo, bem como o impacto para a saúde mental e o desenvolvimento cognitivo, justamente em um momento em que o processo de aprendizado é tão importante.

Taxas de suicídio em alta. Dados divulgados recentemente pelos Centros de Controle e Prevenção dos EUA (CDC) mostram que na faixa dos 10 aos 14 anos, o suicídio já superou os acidentes de trânsito como principal causa de morte. Em parte, o fenômeno é explicado pela redução significativa dos acidentes fatais (que caíram pela metade de 1999 a 2007). Mas a saúde mental desses jovens tem também peso importante nessa equação. No mesmo período, a taxa de suicídio dobrou. Os dados foram divulgados pelo jornal americano The New York Times.

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Apesar de haver maior número de suicídios entre garotos, proporcionalmente o crescimento foi maior entre as meninas. O uso maciço das tecnologias digitais (com a consequente maior exposição às agressões, comparações e diversas formas de violência) e a puberdade chegando mais cedo (com falta de maturidade desses jovens para lidar com essa exposição toda) podem ajudar a entender o que está acontecendo com os mais novos. É bom lembrar que a depressão é uma das principais causas de suicídio, em qualquer faixa de idade.

Para terminar, fica o alerta que muitos jovens “sofrem em silêncio” com depressão, consumo de drogas ou ideias de suicídio. Muitos não contam ou escondem seu estado de família e amigos. Os números revelam a importância de profissionais, pais e escolas estarem mais atentos para a saúde mental dos mais novos. E o que vale para os EUA em parte também vale por aqui.

Fonte: Jornal Estadão - http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,depressao-entre-jovens,10000089464

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Principais fatos sobre o transtorno bipolar

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  1. A Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou o transtorno bipolar como uma das principais causas da redução do tempo de vida e saúde na população entre 15-44 anos de idade, ultrapassando causas como guerra, violência e esquizofrenia.
  2. O transtorno bipolar provavelmente afeta até 2,4 milhões de pessoas no Reino Unido, cerca de 12 milhões nos EUA e 254 milhões no mundo inteiro.
  3. O transtorno bipolar aumenta a taxa de suicídio em até 20 vezes.
  4. Mesmo em países desenvolvidos, esse transtorno é muito pouco identificado. O tempo médio entre a aparição dos primeiros sintomas e a procura por ajuda é de cerca de 4 anos e meio. Uma pesquisa realizada nos EUA mostrou que leva dez anos (em média) para se chegar ao diagnóstico e tratamento corretos.
  5. A mesma pesquisa constatou que, antes de se chegar ao diagnóstico correto, são feitos em média 3 vezes e meia diagnósticos equivocados.
  6. Após o início dos primeiros sintomas, pessoas com transtorno bipolar passam cerca de 50% de suas vidas com sintomas significativos (principalmente a depressão), mesmo com os atuais tratamentos “não ideais”.
  7. Outra pesquisa nos EUA constatou que cerca de 70% dos psiquiatras não tinham conhecimento das diretrizes de tratamento indicadas pelos especialistas da Associação Americana de Psiquiatria sobre o transtorno bipolar.
  8. Em um estudo realizado na Austrália a partir de pessoas com transtorno bipolar que morreram por suicídio, 60% receberam tratamento inadequado. Muitos sequer receberam algum tratamento.
  9. Um bom tratamento estende a expectativa de vida em 6-7 anos e faz a taxa de mortalidade retornar ao seu padrão normal (índices de empresas de seguro costumam ajudar na avaliação dos riscos).
  10. Comparado a outros problemas de saúde que têm impacto semelhante ou menor na qualidade de vida, o tratamento do transtorno bipolar é dificultado pelo grave estigma social e pelo financiamento inadequado para a pesquisa.
  11. A bênção e a maldição? Já é quase certo: os genes que, de um lado, podem dar origem à grave e incapacitante doença bipolar, podem, do outro, ter vantagens – “a vantagem bipolar”. Isto pode explicar porque algumas pessoas excepcionalmente criativas e bem-sucedidas têm parentes com transtorno bipolar, depressão grave e histórico de suicídio em suas famílias. Isso também pode explicar por que muitas pessoas com transtorno bipolar são dotadas.

Fonte: http://www.bipolar-foundation.org/bipolar-disorder/#sthash.2iT9WI2U.dpuf

Tradução livre – ABRATA

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Como ajudar quem você ama a lidar com a mania

Autora: Krystal Reddick

Muitas vezes a mania aparece como sendo o “patinho feio” da dupla mania e depressão. Enquanto a depressão é o centro das atenções, a mania fica ali, jogada para escanteio. Mas se alguma vez você já viu uma pessoa querida (ou até a si mesmo) durante um episódio de mania, deve saber bem que de passivo, quieto e manso, esse patinho não tem nada.

Fazem oito anos que fui diagnosticada com transtorno bipolar. Passei por vários episódios de mania e depressão nesta época. E, para mim, a mania é de longe muito pior. Vivenciei cada sintoma da mania, um por um: falta de controle da impulsividade, gastança de dinheiro, hipersexualidade, pensamentos acelerados, insônia, criatividade, produtividade e grandiosidade. Na mania você se sente bem, mas ela não é boa para você. A pior parte são os gastos. Nestes os oito anos gastei em torno de US$ 30 mil dólares (aproximadamente R$100 mil reais) nos cartões de crédito e ainda estou pagando por isso. Como você pode imaginar, a incapacidade de controlar os impulsos, os gastos excessivos e a hipersexualidade podem levar a grandes estragos na vida de uma pessoa.

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Bom, então como você pode ajudar/apoiar alguém que você ama? Aqui vão algumas perguntas concretas e tarefas que você pode fazer.

Pergunte se ela está se alimentando. Pessoas em mania normalmente não se alimentam ou comem menos do que normalmente comeriam. Eles ficam muito distraídos com seus pensamentos acelerados ou com o mundo à sua volta para se alimentarem como devem. Então, passe um tempo com seu ente querido, especialmente durante as refeições. Boas perguntas a se fazer podem ser: Você comeu hoje? Quantas vezes? Você quer ir comer alguma coisa comigo agora?

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Pergunte sobre seu sono. A falta de sono é um grande gatilho para a mania; não dormir o suficiente pode induzir a um episódio maníaco. A mania pode produzir um estado de produtividade elevada. Pessoas em mania sentem uma diminuição da necessidade de dormir, uma vez que a mania interfere com todos os planos produtivos que têm na cabeça. Algumas pessoas em mania dormem menos de duas horas por noite ou não nem dormem. Boas perguntas a fazer seriam: você dormiu afinal? Por quantas horas? Ou ainda: por que você não pede ao seu médico para prescrever algo para auxiliá-lo a dormir?

Ajude-a a lidar com suas emoções. Aqueles que sofrem de transtorno bipolar, quando não estão estáveis, normalmente oscilam entre os dois polos depressão e mania; daí o termo bipolar. Frequentemente, a mania pode levar à euforia tão facilmente quanto à irritabilidade ou à hipersensibilidade. Assim, boas perguntas a se fazer podem ser: Como você está se sentindo? Você está irritado(a), animado(a), distraído(a), agitado(a)? O que você pode fazer para lidar com todas as emoções que você está vivenciando? Você já tentou respirar profundamente para se concentrar e se acalmar?

Pergunte sobre sua impulsividade. A falta de controle sobre a impulsividade pode muitas vezes levar a resultados desastrosos, como largar um emprego, ter um caso extraconjugal, tirar férias extravagantes ou gastar dinheiro descontroladamente. Boas perguntas poderiam ser: Quanto dinheiro você tem gastado? Posso ficar o seu cartão de crédito? Você tem tido relações sexuais seguras?

Certifique-se que ela está atenta aos cuidados pessoais. Desenvolver maneiras para lidar com a própria condição é crucial tanto em momentos de crise como em tempos de estabilidade. Para manter o controle sobre a mania, é importante que a pessoa permaneça atenta e cuidadosa consigo mesma. Perguntas interessantes podem ser: Quais têm sido os seus cuidados pessoais no dia a dia? Você tem se exercitado para aproveitar um pouco da sua energia eufórica? Você tem meditado para acalmar os seus pensamentos acelerados? Você tem se lembrado dos seus cuidados básicos, como tomar banho, escovar os dentes, lavar os cabelos, vestir roupas limpas etc.?

Fonte: http://ibpf.org/blog/how-support-loved-one-dealing-mania.

Tradução livre ABRATA.

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Cuidado com as garotas!

Estudos mostram que garotas mais jovens parecem hoje muito mais vulneráveis a transtornos emocionais que podem provocar impactos importantes na saúde e comportamento

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Novos trabalhos divulgados na última semana mostram a necessidade de cuidados e atenção redobrados com as garotas mais jovens. Esse grupo parece hoje muito mais vulnerável a transtornos emocionais que podem provocar impactos importantes na saúde e no comportamento.

O primeiro estudo aponta que garotas com déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) apresentam maior risco de desenvolver transtornos mentais. Essa condição elevaria a chance de problemas como gravidez na adolescência, pior desempenho na escola e abuso de drogas. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos EUA, avaliaram trabalhos anteriores com cerca de 2 mil garotas de 8 a 13 anos: 40% delas tinham diagnóstico de TDAH. Ansiedade, depressão, transtorno desafiador opositivo (raiva, hostilidade, dificuldade de lidar com regras), distúrbios de conduta e violência foram mais comuns entre essas meninas do que naquelas que não tinham sintomas de TDAH. Os dados foram publicados no periódico médico Pediatrics.

Segundo os especialistas, é mais difícil diagnosticar TDAH nas meninas. Em geral, elas apresentam menos sintomas de hiperatividade do que os garotos. Em contrapartida, sinais de falta de atenção são frequentes. Se um acompanhamento cuidadoso for feito desde cedo, é mais fácil monitorar e controlar melhor as eventuais dificuldades emocionais e, portanto, reduzir os riscos para a vida dessas garotas.

Outra pesquisa da última semana, feita pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), revela que as adolescentes britânicas estão se tornando o grupo com mais problemas com o álcool. Elas apresentam risco duas vezes maior do que os garotos de se embriagar. Um terço delas já ficou “de porre” pelo menos duas vezes antes dos 15 anos. Além delas, apenas as garotas suecas e canadenses bebem mais do que os meninos. Nos demais países, os garotos ainda ingerem mais álcool. Os dados foram divulgados pelo jornal inglês Daily Mail.

Os números contrastam com tendências apontadas por outros trabalhos atuais, que sugerem uma queda do consumo de álcool entre os menores nos países desenvolvidos, já que eles estariam ficando cada vez mais tempo em suas casas, usando redes sociais, do que na rua, bebendo com os amigos. É importante lembrar que, quanto mais cedo se inicia o contato com o álcool, maiores os riscos de padrões complicados de uso, como o abuso (tomar porres, por exemplo) e a dependência.

Juntando os dois trabalhos citados, percebe-se que as garotas com mais questões emocionais, como as que apresentam depressão, ansiedade e dificuldades de adaptação, correm maior risco de abusar da bebida. E, como se sabe, o álcool acaba impactando diversos campos da vida do jovem, como desempenho escolar, exposição à violência, uso de cigarro, experiência com outras drogas e comportamento sexual de risco, entre outros.

Outro estudo, divulgado pelo Sistema Nacional de Saúde (NHS Digital) do Reino Unido, também na última semana, mostra que as mulheres mais jovens, de 16 a 24 anos, são três vezes mais propensas do que os homens da mesma faixa etária a desenvolver transtornos mentais, como depressão e automutilação. Uma em cada quatro delas vai enfrentar essas questões ao longo da vida. Os dados foram publicados pelo jornal Daily Mail.

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As mesmas redes sociais, que poderiam em teoria proteger as jovens do abuso de álcool, são também grandes vilãs para a saúde emocional dessas meninas, que passam a se comparar o tempo todo com as colegas e sentem fortes pressões para estar sempre bem. O isolamento, o pessimismo e a dificuldade em lidar com problemas acabam minando a autoestima e o bem-estar dessas garotas. Lógico que as redes sociais não são as únicas responsáveis. Outras questões, como desemprego, crise econômica, problemas familiares, exclusão social e machismo, entre outras, também colocam uma carga extra sobre essas meninas hoje. E quem sofre mais acaba bebendo mais!

Os resultados mostram o quanto é importante que os pais e as escolas possam avaliar com frequência o estado psíquico das garotas e procurar ajuda quando necessário. É uma forma de tentar garantir mais saúde e qualidade de vida para essa jovem população feminina hoje mais vulnerável.

Fonte: http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,cuidado-com-as-garotas,10000081060

Autor: Dr Jairo Bouer  Publicado em: 09 Outubro 2016

 

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Assim aprendi a sobreviver após o suicídio do meu filho

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Muitos de nós conseguimos nos lembrar deles pela vida que tiveram, e não pela forma como morreram

Num dia de final de inverno, desses em que se sente o primeiro calor da primavera que se aproxima, rompeu-se a minha história pessoal, a minha vida.

Meu marido, ao telefone, queria saber se eu tinha notícias do nosso filho Miquel. Essa ligação me fez prever o pior, sem saber por quê. Era muito estranho que tivesse ido a algum lugar sem nos avisar. Corremos ao local onde uma amiga o tinha visto pela última vez. O inexplicável mau presságio que nublou minha mente se cumpriu. Miquel tinha 19 anos e morreu por suicídio de uma forma totalmente inesperada, sem que tivesse havido avisos prévios.

A morte por suicídio do meu filho faz parte dessa pequena percentagem que é inexplicável. Um ato impulsivo, sem nenhum transtorno mental grave que o alertasse, nenhuma ameaça ou insinuação. Era um menino saudável que levava uma vida normal.

Desde esse dia há um antes e um depois na minha vida, e é literal.

Quando quero explicar isso em minhas palestras recorro à imagem das torres gêmeas derrubadas no atentado do 11 de Setembro, um verdadeiro marco zero na sua biografia. Você não sabe como vai ressurgir dessa dor tão profunda, de tanta impotência, confusão, desorientação e do eterno “por quê?”. Essa interminável pergunta que nos acompanha durante o longo tempo do luto.

O suicídio sempre é algo que ocorre com os outros, fora da sua casa, da sua família. Você nunca o contempla, porque considera que sua vida e tudo que a cerca é normal. Mas é que o suicídio pode ocorrer dentro da normalidade de uma família. Só que isto não é sabido até que lhe ocorra, e então, quando se rompe o tabu que cerca esta forma de morrer, você conhece outros casos.

O que leva uma pessoa a viver uma situação normal como algo excepcional, insolúvel e cheia de desespero? O que leva uma pessoa a esse não poder mais com a vida? Não sei nem acredito que consigamos algum dia saber, as respostas eles levam, meu filho levou.

Você nunca está preparada para a morte do seu filho, menos ainda para viver sua morte por suicídio, e tampouco está preparada para como vão tratá-la a partir desse momento. Fazem você se sentir suspeita, culpada, algo terá feito de errado para ter chegado a esta situação, não é? A sociedade lhe interroga, questiona.

Tampouco ajudaram os procedimentos da polícia no local da morte: custodiados por policiais à paisana, fiquei sentada no chão durante horas, chorando, esperando que tudo fosse um equívoco de mau gosto do destino. Durante todo esse interminável tempo, um funcionário do local, amável, me ofereceu água, um ato de solidariedade humana que lembro e agradeço ainda hoje. Há uma tendência a dar calmantes nestas situações, mas o psicólogo de atendimento emergencial que chegou disse que não, que nosso estado era de dor e deveria ser sentido “a seco”. Pediu à nossa família que respeitassem a maneira como sentíamos a dor e, sobretudo, que nos dessem água, em pequenos goles, e nos forçassem a comer um pouco. A casa se encheu, temos uma família extensa, que foi se revezando para que sempre tivéssemos apoio. É essencial esse suporte familiar, de nossos amigos e dos de Miquel.

O período seguinte da minha vida foi estar em estado de choque. Nos dois anos seguintes, não sei como sobrevivi, nem como vivi. A vida é, além do mais, tremendamente caprichosa. Você está num processo de luto muito duro, onde parece que tudo parou, mas as coisas continuam acontecendo na vida, ela não lhe dá trégua. Com esforço sobre-humano, reassumi uma semana depois meu posto de trabalho como diretora de uma empresa de pesquisas. Agora, com a perspectiva do tempo, acho que foi um erro no meu caso. As crianças, sim, precisam voltar à rotina, mas os adultos devem dar um tempo para se adaptar a situações tão trágicas, para se permitir parar. No fundo, eu queria procurar e reconhecer um pouco de normalidade dentro do caos da excepcional e traumática experiência vivida.

Meu longo período de luto me ensinou que as emoções, sensações e pensamentos devem ser vividos, sem filtros. Morre a pessoa que você mais ama, a que você melhor conhece, mas quando ela faz algo assim essa conduta a devolve como se fosse um completo desconhecido. Você se pergunta como pôde dar esse passo, como pôde fazer isso com você e romper o vínculo que os unia. Você se sente abandonada, porque a pessoa tomou uma decisão unilateral, sem contar com você.

E a culpa. Ser psicóloga não me ajudou em nada, pelo contrário. Relia obsessivamente os manuais de psicopatologia, mas não encontrava nada, não havia nada do meu filho nesses livros. Recriminava-me por não ter visto nele um gesto que me alertasse. Alguns colegas psicólogos e os amigos de meu filho, que nos conheciam muito bem, salvaram-me desse rumo. Miquel faz parte desses 10% em que não há nenhum fator de risco que fizesse prever o suicídio.

A culpabilidade é uma dura carga que você precisa carregar durante um tempo, precisa trabalhá-la para que seja reparadora e nos ajude a chegar ao perdão. Há outra culpa, entretanto, a culpa inflexível e obsessiva, que é muito tóxica, perigosa e pode levar a condutas autodestrutivas nas pessoas que vivemos a morte por suicídio. A fronteira entre uma e outra pode ser tremendamente tênue, e por isso precisamos de ajuda, que não se encontra facilmente.

Quantos planos de formação em saúde mental contemplam a abordagem da morte por suicídio e suas consequências?

O ser humano é muito complexo, e nunca há um culpado direto, existem muitos fatores que entram em jogo para que uma pessoa dê esse último passo. Ninguém jamais é a única influência na decisão dessa pessoa. Isto e muito mais aprendi com a doutora Carmen Tejedor.

Meu marido e eu tivemos a sorte de conhecer Carmen Tejedor, psiquiatra do Hospital Sant Pau (Barcelona), com mais de 30 anos de experiência em suicídios, que nos recebeu, agora já aposentada.

Embora a doutora não conhecesse Miquel, nos falou com convicção, tentando nos dar consolo sincero, mas, com a verdade da realidade, nos ajudando a entender a situação vivida por pessoas que morrem por suicídio: queriam viver a vida de outra maneira, sem o sofrimento extremo que as levam a morrer, porque no fundo não querem morrer, apenas deixar de sofrer a desesperança vital que sentem. As pessoas que morrem por suicídio não têm liberdade, porque não podem escolher. Se pudessem escolheriam viver a vida, mas sem sofrer. Essa é a grande diferença. Pessoalmente, estas palavras me ajudaram a compreender essa situação que nunca na vida eu havia previsto para meu filho.

A doutora Tejedor nos incentivou, a meu marido e a mim, a criar uma associação para acompanhar os sobreviventes da morte por suicídio no processo de luto, porque, por incrível que pareça, em 2010 não havia nenhuma associação desse tipo na Espanha. Ainda estava trabalhando no meu próprio luto quando registramos os estatutos da entidade, em 2012. Não somos apenas pais. Os sobreviventes da morte por suicídio são também filhos, irmãos, amigos, cônjuges, todos com histórias muito diferentes. Chamamo-nos de sobreviventes porque a vivência é tão traumática que o estresse vivido é comparável ao decorrente de uma vivência similar em um campo de concentração ou situação bélica, segundo a Associação Americana de Psiquiatria. Agora, você só sobrevive com a carga pesada das perguntas que se faz obsessivamente sobre por que não conseguiu evitar.

Na ONG Depois do Suicídio – Associação de Sobreviventes (DSAS) damos acolhida individual a quem precisa conversar, oferecemos grupos de apoio ao luto para poder falar e compartilhar. Precisei falar do que tinha vivido, e essa necessidade é comum na maioria dos sobreviventes. Trabalhamos com os meios de comunicação para conscientizar sobre como informar sobre o assunto. Conseguimos alterar o protocolo dos Mossos d’Esquadra (polícia regional catalã), que agora nas situações de morte por suicídio dão apoio e oferecem o nosso contato. E estamos colaborando com outras instituições para que a morte por suicídio, que é a primeira causa de morte não natural na Espanha, tenha um plano nacional de prevenção, até agora inexplicavelmente inexistente. Além disso, reivindicamos um apoio profissional específico para as pessoas que ficam com este pesado fardo, ao qual temos direito sem que nos julguem por isso.

A associação DSAS é a única ONG espanhola, até o momento, constituída por e para sobreviventes, e existe graças a grandes pessoas, que forma uma grande equipe com um compromisso de oferecer nossa ajuda solidária e altruísta.

Para os sobreviventes que viveram uma morte por suicídio, minha mensagem é que agora já não estão sozinhos. Essa é uma das terríveis primeiras sensações que se sente e se pensa.

Muita gente me pergunta o que pode fazer para que não seja tão doloroso. Minha resposta é que deve-se passar por isso tal qual, não há atalhos. O caminho do luto por suicídio é possivelmente mais longo e o mais complexo de viver.

É necessário que as pessoas se permitam e atendam às suas necessidades. Se é preciso chorar um dia, que se chore, é muito terapêutico, não é sinal de fraqueza. Se outro dia é preciso gritar, que se grite. Escrever também é muito positivo e recomendável, assim como todos os pequenos rituais dos quais necessitamos.

Embora a dor e a incompreensão do vivido nos destruam por dentro, sobrevive-se. Não sei como consegui, sobretudo nos dois primeiros anos, mas avancei. Talvez seja questão de não olhar para além deste dia, não fazer grandes projetos. Sobreviver a pequenos passos, dia a dia.

É possível conseguir isso tendo muita paciência consigo mesmo. Cada um encontra seu espaço e seu caminho de como fazê-lo, e não nego que exige muito esforço. Mas somos muitas as pessoas que podemos chegar a voltar a viver porque encontramos um “para que” ou um “por quem” prosseguir, lembrando-nos deles pela vida que tiveram, e não pela forma como morreram.

Cecilia Borràs é presidenta da Depois do Suicídio – Associação de Sobreviventes.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/07/estilo/1465315526_363329.html

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Novo teste de sangue poderá detectar transtorno bipolar e esquizofrenia

Teste foi desenvolvido pela Unicamp em parceria com a Unifesp. É uma esperança para pacientes que ainda sofrem com falta de diagnóstico. Segundo pesquisadores, no Brasil, um paciente demora, em média, dez anos para ser diagnosticado com bipolaridade.
Novo teste de sangue poderá detectar transtorno bipolar ou esquizofrenia (Crédito: Divulgação)

       Novo teste de sangue poderá detectar transtorno bipolar ou esquizofrenia

Por Daniella Laso

Depois de cinco anos sem tratamento adequado, convivendo com os fortes sintomas da doença, finalmente um diagnóstico: transtorno bipolar. O filho da psicóloga Neila Campos teve uma primeira crise quando foi estudar fora de casa, aos 19 anos, mas somente cinco anos depois é que ele soube o que tinha realmente.

O administrador Roberto passou pelo mesmo problema. O diagnóstico dele demorou 20 anos. O impacto dos transtornos afetivos na incapacitação é tão forte quanto um câncer ou as doenças cardiovasculares. Em média, os pacientes perdem um terço de duas vidas, segundo a Sociedade Brasileira de Psiquiatria.

Uma das prioridades é conseguir ter um diagnóstico mais preciso dessas doenças. Da forma como os diagnósticos são feitos hoje, a esquizofrenia atinge 1% da população mundial e o transtorno bipolar 2,5%, conforme dados da organização mundial de saúde. Atualmente, o diagnóstico é feito pela avaliação dos pacientes, com entrevistas feitas em consultórios. Por causa dessa subjetividade, segundo a psiquiatra e pesquisadora da Unifesp Elisa Brietzke, ainda há muito erro na distinção do tipo de transtorno.

Agora, uma pesquisa inédita da Unicamp e Unifesp teve um resultado promissor por conseguir um modelo satisfatório de teste de sangue para diagnosticar esquizofrenia e transtorno bipolar. O trabalho analisa moléculas ligadas ao metabolismo. Foram utilizadas amostras de sangue três grupos de pacientes: 50 pessoas com transtorno bipolar, 50 com esquizofrenia e 50 saudáveis, chamado grupo controle.

As amostras dos pacientes passam por uma ressonância magnética e seus compostos são analisados e catalogados. Um programa de computador foi desenvolvido para catalogar os resultados. A pesquisa está no começo. Uma patente foi criada e agora aguarda o interesse da indústria para o seu desenvolvimento.

O kit com o teste só deve estar disponível nos laboratórios em dez anos, e funcionaria com um acessório para o diagnóstico e também o acerto da medicação, porque ajuda a monitorar o efeito dos remédios. A pesquisadora Ljubica Tasic veio da Sérvia e há 12 anos é professora na Unicamp. Ela participa do trabalho e diz que o que falta é só ampliar a amostra de testes, com diferentes populações.

No mundo todo há pesquisas em andamento para tentar entender, controlar e mapear os transtornos afetivos. Até agora, o licenciamento do teste de sangue da Agência Inova Unicamp, em parceria com a Unifesp, já foi oferecido para oito empresas farmacêuticas nacionais e internacionais, e os pesquisadores aguardam as respostas.

Fonte: http://cbn.globoradio.globo.com/editorias/ciencia-saude/2016/09/24/NOVO-TESTE-DE-SANGUE-PODERA-DETECTAR-TRANSTORNO-BIPOLAR-E-ESQUIZOFRENIA.htm

SÁBADO, 24/09/2016, 06:00

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