Origem do Estigma

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Dyane Leshin-Harwood

“Estigma = a marca de vergonha ou infâmia, uma mancha ou reprovação, como em sua reputação” (no dicionário em português: aquilo que é considerado indigno, desonroso)

Eu fui diagnosticada com transtorno bipolar pós-parto em outubro de 2007, seis semanas após o nascimento da minha segunda filha. Tinha trinta e sete anos de idade quando me internaram em uma clínica de saúde mental. Enquanto estava lá, um psiquiatra foi me ver  e  e em dois minutos, ele me informou que eu tinha transtorno bipolar.

Tudo mudou.

Liguei para o meu pai usando o telefone público da unidade de saúde. Eramos muito próximos e eu o amava com todo meu coração. Meu pai tinha transtorno bipolar e enquanto eu crescia nunca sonhei que ele e eu iríamos partilhar a mesma doença mental. Ele chorou quando eu dei a notícia.

Eu estava em crise de mania e embora estivesse assustada por estar em uma unidade de saúde tão impessoal, intimidante, me mantive calma diante da tristeza do meu pai. Mais tarde, eu desmoronei em agonia.

Meu pai só viveu mais alguns anos depois da minha primeira internação. Durante esse tempo, ele nunca me julgou por e ter transtorno bipolar. Se fizesse algum comentário depreciativo, ele teria sido um hipócrita, mas pais com transtorno bipolar são conhecidos por culpar seus filhos por também terem a mesma doença mental.

Eu tive uma relação diametralmente oposta com a minha mãe. Eu a amo muito, mas nós tivemos uma relação turbulenta desde que eu era uma adolescente. Ela frequentemente me dizia que eu era do contra, e ela estava certa, pois eu em muitos pontos, raramente, concordava com ela. Nós tínhamos  (e temos) algumas coisas em comum, e amamos uma à outra, mas quando fui diagnosticada com transtorno bipolar, uma fenda maior se abriu entre nós.

Agora eu lamento porque eu nunca tive muita compaixão sobre como era para a minha mãe viver com um marido que tinha transtorno bipolar. Eu não tinha ideia do que ela sofreu antes do meu diagnóstico. Ela resgatou o meu pai muitas vezes de situações terríveis que foram causadas ​​por crises de  mania ou de depressão, incluindo conseguir preservar diversas vezes, o seu emprego, por conversar com seu patrão . Então, novamente, o mundo do transtorno bipolar era obscuro para mim, e ninguém da minha família se preocupou em explicá-lo para claramente.

Mamãe cuidou do papai quando a saúde dele começou a piorar, ela o defendeu dos seus médicos excessivamente incompetentes e ela manteve a vigília até o dia da sua morte. Apesar de sua doença mental grave, sempre foi cristalino para mim, o quanto ela o amava.

Minha mãe, que está com quase oitenta anos, vem de uma geração que eu chamo de “geração estigma”. Embora, ela seja uma livre pensadora em muitos aspectos, eu acredito que ela alimenta o estigma para com aqueles que têm o transtorno bipolar, apesar de sua grande inteligência.

Isso inclui a mim … especialmente eu.

Parte de mim não quer culpá-la por ser uma pessoa com estigma, mas uma parte muito maior de mim me faz responsabilizá-la por sua postura afrontosa. A relação mãe e filha é muitas vezes uma dos mais profundos vínculos que pode existir. Esse fato, por si só explica porque para mim, é muito doloroso, quando ela me deprecia por ser bipolar. Vivemos há centenas de quilômetros de distância uma da outra, de modo que a repreendendo e, geralmente, acontece por telefone. Quando ela me diz que eu “estou em mania” em tom de menosprezo, quando eu simplesmente não concordo com ela sobre alguma coisa, acabo desligando o telefone na cara dela, com raiva. Nada me provoca tanto, quanto a minha mãe me chamar de “bipolar”, de uma forma humilhante.

Ontem à noite, quando eu lhe disse que estava trabalhando no meu livro sobre o transtorno bipolar pós-parto, ela disse que eu era “obsessiva” na escolha do meu tema. (Bem, talvez eu seja um pouco obsessiva, mas eu prefiro o termo “focada”). Ela disse que me imaginava escrevendo romances.

Eu ri! Eu não sou Barbara Cartland! Eu nunca fui um escritora criativa, e eu nunca afirmei que era o que eu queria fazer da minha vida. Eu me sinto em paz com a minha escolha sobre o quero escrever. Eu amo não ficção, e escrevo esse gênero há mais de quinze anos. Na verdade, tudo que eu queria era a aprovação dela. Eu queria ouvi-la dizer: “Oh, Dyane, eu estou tão orgulhosa de você. Isso é um assunto digno de se escrever!”, ou algo nesse sentido.

Não consegui me conter e disse-lhe que queria o seu incentivo, e não ser humilhada. Ela recuou um pouco, e concordou que sim, o tema do meu livro era uma boa ideia, afinal. Mas eu sabia que ela disse só da boca para fora . Eu estava bem ciente de que ela não queria dizer a seus amigos da alta sociedade que eu estava escrevendo um livro sobre a temática bipolar.

“Trata-se de um livro de memórias?” ela perguntou.

“Bem, sim”. Eu respondi. (É meio livro de memórias, meio outras coisas, mas eu não queria entrar em detalhes com ela naquele momento.)

“Eu vou estar nele?”, perguntou ela. Eu sabia que não podia mentir para ela sobre essa questão. Eu estava preocupada que, se eu lhe contasse sobre o meu projeto, ela iria perder a cabeça sobre qualquer menção feita a ela, até mesmo se fosse uma cortesia.

“Bem, sim, só um pouco. É principalmente sobre eu e o meu pai.” Eu usava rodeios. Para minha surpresa e alívio, a minha breve explicação, por enquanto, a acalmou.

“Bem, você está escrevendo sobre o que você quer, não é?” ela respondeu um pouco arrogante.

Oh, eu pensei, isso pode ir para o buraco rapidinho.

“Sim, mas isso é uma coisa boa”. Eu respondi tranquilamente.

As nuvens de tempestade da minha mãe foram evitadas, por enquanto, e eu pude respirar fundo. (Quando minha a mãe tem um  acesso de raiva, faz as explosões das minhas duas filhas parecerem o sussurro de um córrego.)

Eu posso condenar minha mãe tanto quanto quiser, mas não posso imaginar comoo deve ser ter uma criança com transtorno bipolar e, por isso, quero aumentar a minha compreensão.  Não está fora de questão a possibilidade de qualquer uma das minhas filhas ter ou não herdado a genética do transtorno bipolar. Já li vários relatos de que as crianças podem ter probabilidade entre 15% a 30% de herdar a doença bipolar, se um dos pais for bipolar.

Tudo o que posso fazer é aprender com os meus erros e os que eu vivenciei com minha mãe. A coisa mais difícil para eu fazer, de longe, é aceitar que, provavelmente, ela nunca vá mudar a sua atitude em relação à doença bipolar. O estigma é tão traiçoeiro, e se você o alimentou em relação à doença mental por quase 80 anos, é improvável que ele desapareça. Eu tento ser uma pessoa positiva, e a frase “nunca diga nunca” me vem à mente, mas a não ser que haja cura para o transtorno bipolar, eu, provavelmente, aos seus olhos, serei sempre vista como uma mercadoria estragada.

Sobre a autora:  Dyane Leshin-Harwood é uma escritora freelance, mãe e defensora da saúde mental; está trabalhando em seu primeiro livro Birth of a New Brain – Healing from Postpartum Bipolar Desorder (Cura do Transtorno Bipolar pós-parto sem tradução em português). Dyane tem orgulho em ser membro da Assessoria  ao Consumidor da IBPF – International Bipolar Foundation (Fundação Internacional do Transtorno Bipolar).

Veja mais em: http://ibpf.org/blog/stigma-source#sthash.blhxZOHw.dpuf

 

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