O QUE FAZER QUANDO O PORTADOR NÃO ACEITA O TRATAMENTO?

A aceitação do tratamento não é algo tão simples como pode parecer à primeira vista. Aderir a um tratamento significa entrar em concordância com a conduta proposta pelo médico e equipe terapêutica.

Para que isso aconteça, é necessário que a pessoa doente tenha: Q1ZzRlNIBJqLUKFVKnayeg_pills

  • Capacidade de se perceber doente
  • Aceitação do diagnóstico
  • Informação sobre o transtorno e seu tratamento
  • Aliança terapêutica
  • Psicoterapia e grupos de autoajuda
  • Apoio da família e amigos

A falta de adesão ao tratamento não é exclusiva dos transtornos do humor, acontece com várias doenças. É muito frequente em bipolares – mais de um terço abandonam o tratamento duas ou mais vezes e não comunicam o médico

Pode acontecer de várias maneiras, ou seja, o paciente pode não tomar a medicação, ou tomar de acordo com o que acha melhor, interromper e voltar sem comunicar o médico, etc.

Dentre os fatores associados à falta de adesão, destacamos:

  • Auto avaliação prejudicada em decorrência de episódio da doença
  • Negação da enfermidade
  • Preconceito em relação ao uso de psicofármacos
  • Temor aos efeitos colaterais dos medicamentos
  • Crença na capacidade de controlar o próprio humor
  • Estigma social (opinião do meio social desfavorável ao tratamento)
  • Conflitos familiares e interpessoais (estresse relacional e pouco apoio)

Qual a importância de aderir ao tratamento? São vários os motivos para aderir ao tratamento.  Porque os pacientes que aderem ao tratamento:

  • Reduzem as chances de recorrência da doença
  • Controlam a evolução do transtorno
  • Reduzem a chance de suicídio
  • Reduzem a intensidade de eventuais episódios
  • Constroem uma vida mais saudável

Bem, mas saber de tudo isso muitas vezes não é suficiente para garantir que um portador aceite fazer um tratamento para um transtorno do humor e, não raro, sequer aceita fazer uma consulta com um psiquiatra para ouvir uma opinião.

O que a família ou amigos podem, então, fazer numa situação como essas?

Claro que não há solução mágica, um tratamento só acontece e é efetivo se houver uma participação ativa e concordante por parte do paciente. No entanto, é possível tentar um caminho (muitas vezes árduo e demorado) para tentar sensibilizar alguém que se suspeita sofrer de um transtorno do humor a, pelo menos, admitir que pode estar precisando de atenção especializada.

Destacamos, sempre, que um tratamento médico em geral, e em particular um tratamento em saúde mental só tem chance de ser bem sucedido se for realizado em equipe, pelo portador, pelo psiquiatra e psicoterapeuta, e pela família e amigos. Mas se o portador se encontra numa atitude de recusa do tratamento, é o momento de a família tomar a dianteira e procurar sensibilizar o doente a aceitar ir a uma consulta.

De maneira esquemática, damos a seguir algumas dicas de atitudes que podem inspirar os familiares a como lidar com situações de crise, sabendo que nem sempre isso pode dar conta de todas as dificuldades envolvidas nessas situações. Vejamos:

Atitudes recomendadas à família:

  • Abordar o paciente com precaução e empatia – procurar mostrar aqueles sintomas que ele sente como incômodos: insônia, irritabilidade, inquietação, falta de concentração, dificuldade para realizar bem tarefas de que gosta.
  • Dar instruções de maneira clara e precisa, evitando cenas emocionais desgastantes.
  • Adotar uma atitude solidária: mostre que você também tem problemas e dificuldades na sua vida (evitar a exclusão)
  • Um ambiente familiar tolerante e acolhedor favorece a aceitação da condição de doente e, consequentemente, do tratamento.
  • Alimentar a autoestima do paciente: reconhecer os progressos parciais que ele for conseguindo ao longo do tratamento.

Como a família pode enfrentar uma situação de crise?

  • Num episódio da doença, a capacidade de avaliação e julgamento do doente está comprometida.
  • Não manifeste raiva ou irritação, mantenha controle sobre suas emoções
  • Reduza os estímulos (por exemplo, rádio e/ou TV)
  • Falar tranquilo, com voz suave e de forma simples.
  • Mostrar compreensão pelo que o doente está padecendo.
  • Mesmo diante de situações jocosas ou violentas, mantenha a calma.
  • Se a agitação do doente aumentar, solicite ajuda.

Às vezes, a situação é muito grave e representa risco à vida do portador ou de outras pessoas,

  • Ter presente que, em alguma ocasião, poderá ser necessário internar o paciente.
  • A internação não é castigo – é cuidado numa hora em que a vida do paciente e/ou dos demais corre risco.
  • A internação, em geral, é breve e, após um período de adaptação e tratamento, o paciente deve retornar ao seu meio e ser ajudado a retomar sua vida.

Não existem respostas fáceis, exceto que a família deve ter:

  • Paciência
  • Tranquilidade
  • Interesse
  • Participação
  • Solicitar informação e orientação necessárias.

Persuadir o paciente a se tratar não é tarefa fácil. Requer paciência e compreensão e, muitas vezes, é necessário que se sofra por várias crises até que o portador aceite seu diagnóstico e assuma seu tratamento.

Autora: Dra Rosilda Antonio, psiquiatra e vice-presidente do Conselho Científico da ABRATA

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224 Respostas a O QUE FAZER QUANDO O PORTADOR NÃO ACEITA O TRATAMENTO?

  1. Juliana diz:

    Boa noite,
    Não sei mais o que fazer com meu pai, ele foi diagnosticado com bipolaridade, já fez tratamento por um tempo mas agora não quer mais ir ao médico e está tendo muitas crises recorrentes. Agora toma os remédios por conta própria, tem ameaçado muito minha mãe e eu. Não sabemos mais como lidar. O que podemos fazer??

    • Equipe Abrata diz:

      Prezada Juliana

      Há situações que ensejam uma intervenção mais rigorosa, como a internação involuntária, para evitar que o doente corra risco de vida ou
      exponha terceiros a riscos.
      Assim, os familiares devem ter presente que, em alguma ocasião, poderá ser necessário internar o paciente.
      A internação não é castigo – é cuidado numa hora em que a vida do paciente e/ou dos demais corre risco.
      A internação, em geral, é breve e, após um período de adaptação e tratamento, o paciente deve retornar ao seu meio e ser ajudado a retomar sua vida.

      Um abraço
      Equipe ABRATA

  2. Yasmin diz:

    Boa noite, gostaria de saber como proceder com minha irmã. Ela tem dezessete anos e é diagnosticada como bipolar e boderline, não aceitando o tratamento e fazendo o uso de drogas ilícitas. Minha mãe, diagnosticada há dez anos como bipolar não tem mais condições e nem mesmo o resto da família tem conseguido efeito no contato com ela. Ela não aceita uma intervenção e só aparece em casa para comer e tomar banho
    Uma internação forçada seria o caso? E, se sim, como devo proceder quando não se tem mais o que fazer?

    • Equipe Abrata diz:

      Prezada Yasmin.

      A família deve ter presente que, em alguma ocasião, poderá ser necessário internar o paciente.
      A internação não é castigo – é cuidado numa hora em que a vida do paciente e/ou dos demais corre risco.
      A internação, em geral, é breve e, após um período de adaptação e tratamento, o paciente deve retornar ao seu meio e ser ajudado a retomar sua vida.

      A internação involuntária, contra a vontade do paciente, é comum na psiquiatria quando o paciente não possui consciência de sua doença ou do estado de gravidade, mas precisa ser hospitalizado para sua proteção e tratamento. Esta realidade atinge não só dependentes químicos, como também portadores de doenças psiquiátricas, como a esquizofrenia e o transtorno bipolar.

      Internação involuntária. É a que ocorre sem o consentimento do paciente e a pedido de terceiros. Geralmente, são os familiares que solicitam a internação do paciente, mas é possível que o pedido venha de outras fontes. O pedido tem que ser feito por escrito e aceito pelo médico psiquiatra.
      A lei determina que, nesses casos, os responsáveis técnicos do estabelecimento de saúde têm prazo de 72 horas para informar ao Ministério Público do estado sobre a internação e os motivos dela. O objetivo é evitar a possibilidade de esse tipo de internação ser utilizado para a cárcere privado.

      Um abraço
      Equipe ABRATA

  3. Jessica Bernardo de Morais diz:

    Por favor, gostaria de receber informações do que fazer com minha mãe.
    Em 2011, minha mãe teve depressão, ela tinha mania de perseguição, e não se cuidava e não queria tomar remédios. Em 2015, com muita persistência, ela começou a tomar remédios (tarja preta), ela ficou muito bem, ficou ótima, voltou a ser a mãe de antes. Em 2016 no mês de Setembro ela recebeu alta da psiquiatra pois estava grávida e, para não prejudicar o bebê, ela parou de tomar remédios. Este ano no final do mês passado ela começou a ter novamente a crise de depressão, mas dessa vez está bem mais forte, ela fica xingando as pessoas (ninguém fez nada para ela), chama as pessoas de demônios, ela coloca coisas na cabeça que não tem nada haver, ela se esqueceu do bebê pequeno, ela fala que tudo ela está certa e os outros estão errados, ela fala coisas que não tem nada haver, e fora outras coisas, ela não quer aceitar o tratamento, não sabemos mais o que fazer pois a cada dia ela está pior.

    • Equipe Abrata diz:

      Cara Jessica.

      Sintomas como euforia, fala rápida, irritação, agitação, insônia, agressividade, hostilidade e depressão podem ser sinais de transtornos
      que acometem o humor, seja para o polo depressivo, seja para o da euforia. Porém, quando os sintomas vêm alternados em uma mesma pessoa,
      pode ser um alerta para o transtorno bipolar.
      É fundamental o acompanhamento médico para um diagnóstico correto e um tratamento adequado.
      E como convencê-la a procurar ajuda?
      Procure conversar com a sua mãe em um momento de tranquilidade, onde ela poderá compreender a importância da ajuda profissional.
      Relate que com o tratamento medicamentoso apropriado, ela poderá ficar estável e levar uma vida normal.
      Por outro lado, se ela estiver colocando em risco a própria vida ou a dos demais e, como diz você, negligenciando os cuidados com o bebê,
      é importante que a família considere uma possível internação.
      A internação psiquiátrica é um instrumento de tratamento que tem como finalidade garantir a melhora do estado mental do portador de doença
      mental com seu retorno o mais rápido possível ao seu meio e às suas atividades de rotina, tudo isto com o menor comprometimento de seus
      vínculos sociais ou familiares.

      Um abraço
      Equipe ABRATA

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