Depressão entre jovens

Porcentagem de adultos jovens e adolescentes com o problema saltou de 8,4% para 11,3%
adolescenteAutor: Jairo Bouer | Psiquiatra

Novos dados divulgados nas últimas semanas mostram que a saúde mental dos adolescentes deve ser foco importante das autoridades nos EUA nos próximos anos. Depressão, problemas com uso de substâncias e taxas de suicídio estão em alta.

O primeiro estudo, publicado no periódico Pediatrics, revela que entre 2005 e 2014, a porcentagem de adolescentes e adultos jovens que já enfrentaram um episódio de depressão saltou de 8,4% para 11,3%. A cada ano, um em cada dez deles vai enfrentar um episódio depressivo.Os pesquisadores da Universidade de Washington e da Escola de Saúde Pública de Johns Hopkins Bloomberg, em Baltimore, levantaram dados da Pesquisa Nacional de Uso de Drogas e Saúde, investigação anual do governo americano com dados de 172 mil adolescentes (de 12 a 17 anos) e de 178 mil adultos jovens (de 18 a 25 anos). As informações foram divulgadas pelo site Live Science e pelo jornal britânico Daily Mail.Entre os adultos jovens, a faixa em que se nota um aumento mais nítido da depressão está entre 18 e 20 anos. Entre os adolescentes, o crescimento mais significativo aconteceu a partir de 2011. Em alguns Estados, a porcentagem de jovens com história recente de depressão atingiu 14%.As taxas foram mais significativas entre as garotas, sobretudo nas estudantes negras. Especialistas acreditam que o crescimento do ciberbullying pode ser uma das raízes do problema. Não estar na escola, estar desempregado, morar em um lar sem um dos pais, ou sem os dois, e, ainda, o abuso de substâncias apareceram como fatores de risco para a depressão.

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Dependência. Por falar em drogas, novo relatório do ministro da Saúde dos EUA revelou que um em cada sete americanos enfrenta hoje problemas com dependência de álcool, cigarro ou drogas. Isso implica em 21 milhões de pessoas, mais do que o número de pacientes que enfrenta o câncer naquele país. Só 10% têm acesso a tratamento. As informações são do Daily Mail.

Além dos impactos para a saúde física, o abuso de substâncias tem peso importante para a saúde mental, e é uma das principais causas para os transtornos psiquiátricos. Em um momento em que o país adota posturas mais liberais em relação ao consumo de maconha, com vários Estados assumindo legislação mais flexível, os números podem mostrar a necessidade de uma mudança cultural em relação às drogas, sobretudo nos casos em que existe padrões de abuso e dependência.

Entre os jovens, quanto mais cedo o contato com as substâncias, maiores os riscos de padrões mais complicados de consumo, bem como o impacto para a saúde mental e o desenvolvimento cognitivo, justamente em um momento em que o processo de aprendizado é tão importante.

Taxas de suicídio em alta. Dados divulgados recentemente pelos Centros de Controle e Prevenção dos EUA (CDC) mostram que na faixa dos 10 aos 14 anos, o suicídio já superou os acidentes de trânsito como principal causa de morte. Em parte, o fenômeno é explicado pela redução significativa dos acidentes fatais (que caíram pela metade de 1999 a 2007). Mas a saúde mental desses jovens tem também peso importante nessa equação. No mesmo período, a taxa de suicídio dobrou. Os dados foram divulgados pelo jornal americano The New York Times.

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Apesar de haver maior número de suicídios entre garotos, proporcionalmente o crescimento foi maior entre as meninas. O uso maciço das tecnologias digitais (com a consequente maior exposição às agressões, comparações e diversas formas de violência) e a puberdade chegando mais cedo (com falta de maturidade desses jovens para lidar com essa exposição toda) podem ajudar a entender o que está acontecendo com os mais novos. É bom lembrar que a depressão é uma das principais causas de suicídio, em qualquer faixa de idade.

Para terminar, fica o alerta que muitos jovens “sofrem em silêncio” com depressão, consumo de drogas ou ideias de suicídio. Muitos não contam ou escondem seu estado de família e amigos. Os números revelam a importância de profissionais, pais e escolas estarem mais atentos para a saúde mental dos mais novos. E o que vale para os EUA em parte também vale por aqui.

Fonte: Jornal Estadão - http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,depressao-entre-jovens,10000089464

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Principais fatos sobre o transtorno bipolar

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  1. A Organização Mundial da Saúde (OMS) identificou o transtorno bipolar como uma das principais causas da redução do tempo de vida e saúde na população entre 15-44 anos de idade, ultrapassando causas como guerra, violência e esquizofrenia.
  2. O transtorno bipolar provavelmente afeta até 2,4 milhões de pessoas no Reino Unido, cerca de 12 milhões nos EUA e 254 milhões no mundo inteiro.
  3. O transtorno bipolar aumenta a taxa de suicídio em até 20 vezes.
  4. Mesmo em países desenvolvidos, esse transtorno é muito pouco identificado. O tempo médio entre a aparição dos primeiros sintomas e a procura por ajuda é de cerca de 4 anos e meio. Uma pesquisa realizada nos EUA mostrou que leva dez anos (em média) para se chegar ao diagnóstico e tratamento corretos.
  5. A mesma pesquisa constatou que, antes de se chegar ao diagnóstico correto, são feitos em média 3 vezes e meia diagnósticos equivocados.
  6. Após o início dos primeiros sintomas, pessoas com transtorno bipolar passam cerca de 50% de suas vidas com sintomas significativos (principalmente a depressão), mesmo com os atuais tratamentos “não ideais”.
  7. Outra pesquisa nos EUA constatou que cerca de 70% dos psiquiatras não tinham conhecimento das diretrizes de tratamento indicadas pelos especialistas da Associação Americana de Psiquiatria sobre o transtorno bipolar.
  8. Em um estudo realizado na Austrália a partir de pessoas com transtorno bipolar que morreram por suicídio, 60% receberam tratamento inadequado. Muitos sequer receberam algum tratamento.
  9. Um bom tratamento estende a expectativa de vida em 6-7 anos e faz a taxa de mortalidade retornar ao seu padrão normal (índices de empresas de seguro costumam ajudar na avaliação dos riscos).
  10. Comparado a outros problemas de saúde que têm impacto semelhante ou menor na qualidade de vida, o tratamento do transtorno bipolar é dificultado pelo grave estigma social e pelo financiamento inadequado para a pesquisa.
  11. A bênção e a maldição? Já é quase certo: os genes que, de um lado, podem dar origem à grave e incapacitante doença bipolar, podem, do outro, ter vantagens – “a vantagem bipolar”. Isto pode explicar porque algumas pessoas excepcionalmente criativas e bem-sucedidas têm parentes com transtorno bipolar, depressão grave e histórico de suicídio em suas famílias. Isso também pode explicar por que muitas pessoas com transtorno bipolar são dotadas.

Fonte: http://www.bipolar-foundation.org/bipolar-disorder/#sthash.2iT9WI2U.dpuf

Tradução livre – ABRATA

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Como ajudar quem você ama a lidar com a mania

Autora: Krystal Reddick

Muitas vezes a mania aparece como sendo o “patinho feio” da dupla mania e depressão. Enquanto a depressão é o centro das atenções, a mania fica ali, jogada para escanteio. Mas se alguma vez você já viu uma pessoa querida (ou até a si mesmo) durante um episódio de mania, deve saber bem que de passivo, quieto e manso, esse patinho não tem nada.

Fazem oito anos que fui diagnosticada com transtorno bipolar. Passei por vários episódios de mania e depressão nesta época. E, para mim, a mania é de longe muito pior. Vivenciei cada sintoma da mania, um por um: falta de controle da impulsividade, gastança de dinheiro, hipersexualidade, pensamentos acelerados, insônia, criatividade, produtividade e grandiosidade. Na mania você se sente bem, mas ela não é boa para você. A pior parte são os gastos. Nestes os oito anos gastei em torno de US$ 30 mil dólares (aproximadamente R$100 mil reais) nos cartões de crédito e ainda estou pagando por isso. Como você pode imaginar, a incapacidade de controlar os impulsos, os gastos excessivos e a hipersexualidade podem levar a grandes estragos na vida de uma pessoa.

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Bom, então como você pode ajudar/apoiar alguém que você ama? Aqui vão algumas perguntas concretas e tarefas que você pode fazer.

Pergunte se ela está se alimentando. Pessoas em mania normalmente não se alimentam ou comem menos do que normalmente comeriam. Eles ficam muito distraídos com seus pensamentos acelerados ou com o mundo à sua volta para se alimentarem como devem. Então, passe um tempo com seu ente querido, especialmente durante as refeições. Boas perguntas a se fazer podem ser: Você comeu hoje? Quantas vezes? Você quer ir comer alguma coisa comigo agora?

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Pergunte sobre seu sono. A falta de sono é um grande gatilho para a mania; não dormir o suficiente pode induzir a um episódio maníaco. A mania pode produzir um estado de produtividade elevada. Pessoas em mania sentem uma diminuição da necessidade de dormir, uma vez que a mania interfere com todos os planos produtivos que têm na cabeça. Algumas pessoas em mania dormem menos de duas horas por noite ou não nem dormem. Boas perguntas a fazer seriam: você dormiu afinal? Por quantas horas? Ou ainda: por que você não pede ao seu médico para prescrever algo para auxiliá-lo a dormir?

Ajude-a a lidar com suas emoções. Aqueles que sofrem de transtorno bipolar, quando não estão estáveis, normalmente oscilam entre os dois polos depressão e mania; daí o termo bipolar. Frequentemente, a mania pode levar à euforia tão facilmente quanto à irritabilidade ou à hipersensibilidade. Assim, boas perguntas a se fazer podem ser: Como você está se sentindo? Você está irritado(a), animado(a), distraído(a), agitado(a)? O que você pode fazer para lidar com todas as emoções que você está vivenciando? Você já tentou respirar profundamente para se concentrar e se acalmar?

Pergunte sobre sua impulsividade. A falta de controle sobre a impulsividade pode muitas vezes levar a resultados desastrosos, como largar um emprego, ter um caso extraconjugal, tirar férias extravagantes ou gastar dinheiro descontroladamente. Boas perguntas poderiam ser: Quanto dinheiro você tem gastado? Posso ficar o seu cartão de crédito? Você tem tido relações sexuais seguras?

Certifique-se que ela está atenta aos cuidados pessoais. Desenvolver maneiras para lidar com a própria condição é crucial tanto em momentos de crise como em tempos de estabilidade. Para manter o controle sobre a mania, é importante que a pessoa permaneça atenta e cuidadosa consigo mesma. Perguntas interessantes podem ser: Quais têm sido os seus cuidados pessoais no dia a dia? Você tem se exercitado para aproveitar um pouco da sua energia eufórica? Você tem meditado para acalmar os seus pensamentos acelerados? Você tem se lembrado dos seus cuidados básicos, como tomar banho, escovar os dentes, lavar os cabelos, vestir roupas limpas etc.?

Fonte: http://ibpf.org/blog/how-support-loved-one-dealing-mania.

Tradução livre ABRATA.

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Cuidado com as garotas!

Estudos mostram que garotas mais jovens parecem hoje muito mais vulneráveis a transtornos emocionais que podem provocar impactos importantes na saúde e comportamento

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Novos trabalhos divulgados na última semana mostram a necessidade de cuidados e atenção redobrados com as garotas mais jovens. Esse grupo parece hoje muito mais vulnerável a transtornos emocionais que podem provocar impactos importantes na saúde e no comportamento.

O primeiro estudo aponta que garotas com déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) apresentam maior risco de desenvolver transtornos mentais. Essa condição elevaria a chance de problemas como gravidez na adolescência, pior desempenho na escola e abuso de drogas. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos EUA, avaliaram trabalhos anteriores com cerca de 2 mil garotas de 8 a 13 anos: 40% delas tinham diagnóstico de TDAH. Ansiedade, depressão, transtorno desafiador opositivo (raiva, hostilidade, dificuldade de lidar com regras), distúrbios de conduta e violência foram mais comuns entre essas meninas do que naquelas que não tinham sintomas de TDAH. Os dados foram publicados no periódico médico Pediatrics.

Segundo os especialistas, é mais difícil diagnosticar TDAH nas meninas. Em geral, elas apresentam menos sintomas de hiperatividade do que os garotos. Em contrapartida, sinais de falta de atenção são frequentes. Se um acompanhamento cuidadoso for feito desde cedo, é mais fácil monitorar e controlar melhor as eventuais dificuldades emocionais e, portanto, reduzir os riscos para a vida dessas garotas.

Outra pesquisa da última semana, feita pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), revela que as adolescentes britânicas estão se tornando o grupo com mais problemas com o álcool. Elas apresentam risco duas vezes maior do que os garotos de se embriagar. Um terço delas já ficou “de porre” pelo menos duas vezes antes dos 15 anos. Além delas, apenas as garotas suecas e canadenses bebem mais do que os meninos. Nos demais países, os garotos ainda ingerem mais álcool. Os dados foram divulgados pelo jornal inglês Daily Mail.

Os números contrastam com tendências apontadas por outros trabalhos atuais, que sugerem uma queda do consumo de álcool entre os menores nos países desenvolvidos, já que eles estariam ficando cada vez mais tempo em suas casas, usando redes sociais, do que na rua, bebendo com os amigos. É importante lembrar que, quanto mais cedo se inicia o contato com o álcool, maiores os riscos de padrões complicados de uso, como o abuso (tomar porres, por exemplo) e a dependência.

Juntando os dois trabalhos citados, percebe-se que as garotas com mais questões emocionais, como as que apresentam depressão, ansiedade e dificuldades de adaptação, correm maior risco de abusar da bebida. E, como se sabe, o álcool acaba impactando diversos campos da vida do jovem, como desempenho escolar, exposição à violência, uso de cigarro, experiência com outras drogas e comportamento sexual de risco, entre outros.

Outro estudo, divulgado pelo Sistema Nacional de Saúde (NHS Digital) do Reino Unido, também na última semana, mostra que as mulheres mais jovens, de 16 a 24 anos, são três vezes mais propensas do que os homens da mesma faixa etária a desenvolver transtornos mentais, como depressão e automutilação. Uma em cada quatro delas vai enfrentar essas questões ao longo da vida. Os dados foram publicados pelo jornal Daily Mail.

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As mesmas redes sociais, que poderiam em teoria proteger as jovens do abuso de álcool, são também grandes vilãs para a saúde emocional dessas meninas, que passam a se comparar o tempo todo com as colegas e sentem fortes pressões para estar sempre bem. O isolamento, o pessimismo e a dificuldade em lidar com problemas acabam minando a autoestima e o bem-estar dessas garotas. Lógico que as redes sociais não são as únicas responsáveis. Outras questões, como desemprego, crise econômica, problemas familiares, exclusão social e machismo, entre outras, também colocam uma carga extra sobre essas meninas hoje. E quem sofre mais acaba bebendo mais!

Os resultados mostram o quanto é importante que os pais e as escolas possam avaliar com frequência o estado psíquico das garotas e procurar ajuda quando necessário. É uma forma de tentar garantir mais saúde e qualidade de vida para essa jovem população feminina hoje mais vulnerável.

Fonte: http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,cuidado-com-as-garotas,10000081060

Autor: Dr Jairo Bouer  Publicado em: 09 Outubro 2016

 

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Assim aprendi a sobreviver após o suicídio do meu filho

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Muitos de nós conseguimos nos lembrar deles pela vida que tiveram, e não pela forma como morreram

Num dia de final de inverno, desses em que se sente o primeiro calor da primavera que se aproxima, rompeu-se a minha história pessoal, a minha vida.

Meu marido, ao telefone, queria saber se eu tinha notícias do nosso filho Miquel. Essa ligação me fez prever o pior, sem saber por quê. Era muito estranho que tivesse ido a algum lugar sem nos avisar. Corremos ao local onde uma amiga o tinha visto pela última vez. O inexplicável mau presságio que nublou minha mente se cumpriu. Miquel tinha 19 anos e morreu por suicídio de uma forma totalmente inesperada, sem que tivesse havido avisos prévios.

A morte por suicídio do meu filho faz parte dessa pequena percentagem que é inexplicável. Um ato impulsivo, sem nenhum transtorno mental grave que o alertasse, nenhuma ameaça ou insinuação. Era um menino saudável que levava uma vida normal.

Desde esse dia há um antes e um depois na minha vida, e é literal.

Quando quero explicar isso em minhas palestras recorro à imagem das torres gêmeas derrubadas no atentado do 11 de Setembro, um verdadeiro marco zero na sua biografia. Você não sabe como vai ressurgir dessa dor tão profunda, de tanta impotência, confusão, desorientação e do eterno “por quê?”. Essa interminável pergunta que nos acompanha durante o longo tempo do luto.

O suicídio sempre é algo que ocorre com os outros, fora da sua casa, da sua família. Você nunca o contempla, porque considera que sua vida e tudo que a cerca é normal. Mas é que o suicídio pode ocorrer dentro da normalidade de uma família. Só que isto não é sabido até que lhe ocorra, e então, quando se rompe o tabu que cerca esta forma de morrer, você conhece outros casos.

O que leva uma pessoa a viver uma situação normal como algo excepcional, insolúvel e cheia de desespero? O que leva uma pessoa a esse não poder mais com a vida? Não sei nem acredito que consigamos algum dia saber, as respostas eles levam, meu filho levou.

Você nunca está preparada para a morte do seu filho, menos ainda para viver sua morte por suicídio, e tampouco está preparada para como vão tratá-la a partir desse momento. Fazem você se sentir suspeita, culpada, algo terá feito de errado para ter chegado a esta situação, não é? A sociedade lhe interroga, questiona.

Tampouco ajudaram os procedimentos da polícia no local da morte: custodiados por policiais à paisana, fiquei sentada no chão durante horas, chorando, esperando que tudo fosse um equívoco de mau gosto do destino. Durante todo esse interminável tempo, um funcionário do local, amável, me ofereceu água, um ato de solidariedade humana que lembro e agradeço ainda hoje. Há uma tendência a dar calmantes nestas situações, mas o psicólogo de atendimento emergencial que chegou disse que não, que nosso estado era de dor e deveria ser sentido “a seco”. Pediu à nossa família que respeitassem a maneira como sentíamos a dor e, sobretudo, que nos dessem água, em pequenos goles, e nos forçassem a comer um pouco. A casa se encheu, temos uma família extensa, que foi se revezando para que sempre tivéssemos apoio. É essencial esse suporte familiar, de nossos amigos e dos de Miquel.

O período seguinte da minha vida foi estar em estado de choque. Nos dois anos seguintes, não sei como sobrevivi, nem como vivi. A vida é, além do mais, tremendamente caprichosa. Você está num processo de luto muito duro, onde parece que tudo parou, mas as coisas continuam acontecendo na vida, ela não lhe dá trégua. Com esforço sobre-humano, reassumi uma semana depois meu posto de trabalho como diretora de uma empresa de pesquisas. Agora, com a perspectiva do tempo, acho que foi um erro no meu caso. As crianças, sim, precisam voltar à rotina, mas os adultos devem dar um tempo para se adaptar a situações tão trágicas, para se permitir parar. No fundo, eu queria procurar e reconhecer um pouco de normalidade dentro do caos da excepcional e traumática experiência vivida.

Meu longo período de luto me ensinou que as emoções, sensações e pensamentos devem ser vividos, sem filtros. Morre a pessoa que você mais ama, a que você melhor conhece, mas quando ela faz algo assim essa conduta a devolve como se fosse um completo desconhecido. Você se pergunta como pôde dar esse passo, como pôde fazer isso com você e romper o vínculo que os unia. Você se sente abandonada, porque a pessoa tomou uma decisão unilateral, sem contar com você.

E a culpa. Ser psicóloga não me ajudou em nada, pelo contrário. Relia obsessivamente os manuais de psicopatologia, mas não encontrava nada, não havia nada do meu filho nesses livros. Recriminava-me por não ter visto nele um gesto que me alertasse. Alguns colegas psicólogos e os amigos de meu filho, que nos conheciam muito bem, salvaram-me desse rumo. Miquel faz parte desses 10% em que não há nenhum fator de risco que fizesse prever o suicídio.

A culpabilidade é uma dura carga que você precisa carregar durante um tempo, precisa trabalhá-la para que seja reparadora e nos ajude a chegar ao perdão. Há outra culpa, entretanto, a culpa inflexível e obsessiva, que é muito tóxica, perigosa e pode levar a condutas autodestrutivas nas pessoas que vivemos a morte por suicídio. A fronteira entre uma e outra pode ser tremendamente tênue, e por isso precisamos de ajuda, que não se encontra facilmente.

Quantos planos de formação em saúde mental contemplam a abordagem da morte por suicídio e suas consequências?

O ser humano é muito complexo, e nunca há um culpado direto, existem muitos fatores que entram em jogo para que uma pessoa dê esse último passo. Ninguém jamais é a única influência na decisão dessa pessoa. Isto e muito mais aprendi com a doutora Carmen Tejedor.

Meu marido e eu tivemos a sorte de conhecer Carmen Tejedor, psiquiatra do Hospital Sant Pau (Barcelona), com mais de 30 anos de experiência em suicídios, que nos recebeu, agora já aposentada.

Embora a doutora não conhecesse Miquel, nos falou com convicção, tentando nos dar consolo sincero, mas, com a verdade da realidade, nos ajudando a entender a situação vivida por pessoas que morrem por suicídio: queriam viver a vida de outra maneira, sem o sofrimento extremo que as levam a morrer, porque no fundo não querem morrer, apenas deixar de sofrer a desesperança vital que sentem. As pessoas que morrem por suicídio não têm liberdade, porque não podem escolher. Se pudessem escolheriam viver a vida, mas sem sofrer. Essa é a grande diferença. Pessoalmente, estas palavras me ajudaram a compreender essa situação que nunca na vida eu havia previsto para meu filho.

A doutora Tejedor nos incentivou, a meu marido e a mim, a criar uma associação para acompanhar os sobreviventes da morte por suicídio no processo de luto, porque, por incrível que pareça, em 2010 não havia nenhuma associação desse tipo na Espanha. Ainda estava trabalhando no meu próprio luto quando registramos os estatutos da entidade, em 2012. Não somos apenas pais. Os sobreviventes da morte por suicídio são também filhos, irmãos, amigos, cônjuges, todos com histórias muito diferentes. Chamamo-nos de sobreviventes porque a vivência é tão traumática que o estresse vivido é comparável ao decorrente de uma vivência similar em um campo de concentração ou situação bélica, segundo a Associação Americana de Psiquiatria. Agora, você só sobrevive com a carga pesada das perguntas que se faz obsessivamente sobre por que não conseguiu evitar.

Na ONG Depois do Suicídio – Associação de Sobreviventes (DSAS) damos acolhida individual a quem precisa conversar, oferecemos grupos de apoio ao luto para poder falar e compartilhar. Precisei falar do que tinha vivido, e essa necessidade é comum na maioria dos sobreviventes. Trabalhamos com os meios de comunicação para conscientizar sobre como informar sobre o assunto. Conseguimos alterar o protocolo dos Mossos d’Esquadra (polícia regional catalã), que agora nas situações de morte por suicídio dão apoio e oferecem o nosso contato. E estamos colaborando com outras instituições para que a morte por suicídio, que é a primeira causa de morte não natural na Espanha, tenha um plano nacional de prevenção, até agora inexplicavelmente inexistente. Além disso, reivindicamos um apoio profissional específico para as pessoas que ficam com este pesado fardo, ao qual temos direito sem que nos julguem por isso.

A associação DSAS é a única ONG espanhola, até o momento, constituída por e para sobreviventes, e existe graças a grandes pessoas, que forma uma grande equipe com um compromisso de oferecer nossa ajuda solidária e altruísta.

Para os sobreviventes que viveram uma morte por suicídio, minha mensagem é que agora já não estão sozinhos. Essa é uma das terríveis primeiras sensações que se sente e se pensa.

Muita gente me pergunta o que pode fazer para que não seja tão doloroso. Minha resposta é que deve-se passar por isso tal qual, não há atalhos. O caminho do luto por suicídio é possivelmente mais longo e o mais complexo de viver.

É necessário que as pessoas se permitam e atendam às suas necessidades. Se é preciso chorar um dia, que se chore, é muito terapêutico, não é sinal de fraqueza. Se outro dia é preciso gritar, que se grite. Escrever também é muito positivo e recomendável, assim como todos os pequenos rituais dos quais necessitamos.

Embora a dor e a incompreensão do vivido nos destruam por dentro, sobrevive-se. Não sei como consegui, sobretudo nos dois primeiros anos, mas avancei. Talvez seja questão de não olhar para além deste dia, não fazer grandes projetos. Sobreviver a pequenos passos, dia a dia.

É possível conseguir isso tendo muita paciência consigo mesmo. Cada um encontra seu espaço e seu caminho de como fazê-lo, e não nego que exige muito esforço. Mas somos muitas as pessoas que podemos chegar a voltar a viver porque encontramos um “para que” ou um “por quem” prosseguir, lembrando-nos deles pela vida que tiveram, e não pela forma como morreram.

Cecilia Borràs é presidenta da Depois do Suicídio – Associação de Sobreviventes.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/07/estilo/1465315526_363329.html

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Novo teste de sangue poderá detectar transtorno bipolar e esquizofrenia

Teste foi desenvolvido pela Unicamp em parceria com a Unifesp. É uma esperança para pacientes que ainda sofrem com falta de diagnóstico. Segundo pesquisadores, no Brasil, um paciente demora, em média, dez anos para ser diagnosticado com bipolaridade.
Novo teste de sangue poderá detectar transtorno bipolar ou esquizofrenia (Crédito: Divulgação)

       Novo teste de sangue poderá detectar transtorno bipolar ou esquizofrenia

Por Daniella Laso

Depois de cinco anos sem tratamento adequado, convivendo com os fortes sintomas da doença, finalmente um diagnóstico: transtorno bipolar. O filho da psicóloga Neila Campos teve uma primeira crise quando foi estudar fora de casa, aos 19 anos, mas somente cinco anos depois é que ele soube o que tinha realmente.

O administrador Roberto passou pelo mesmo problema. O diagnóstico dele demorou 20 anos. O impacto dos transtornos afetivos na incapacitação é tão forte quanto um câncer ou as doenças cardiovasculares. Em média, os pacientes perdem um terço de duas vidas, segundo a Sociedade Brasileira de Psiquiatria.

Uma das prioridades é conseguir ter um diagnóstico mais preciso dessas doenças. Da forma como os diagnósticos são feitos hoje, a esquizofrenia atinge 1% da população mundial e o transtorno bipolar 2,5%, conforme dados da organização mundial de saúde. Atualmente, o diagnóstico é feito pela avaliação dos pacientes, com entrevistas feitas em consultórios. Por causa dessa subjetividade, segundo a psiquiatra e pesquisadora da Unifesp Elisa Brietzke, ainda há muito erro na distinção do tipo de transtorno.

Agora, uma pesquisa inédita da Unicamp e Unifesp teve um resultado promissor por conseguir um modelo satisfatório de teste de sangue para diagnosticar esquizofrenia e transtorno bipolar. O trabalho analisa moléculas ligadas ao metabolismo. Foram utilizadas amostras de sangue três grupos de pacientes: 50 pessoas com transtorno bipolar, 50 com esquizofrenia e 50 saudáveis, chamado grupo controle.

As amostras dos pacientes passam por uma ressonância magnética e seus compostos são analisados e catalogados. Um programa de computador foi desenvolvido para catalogar os resultados. A pesquisa está no começo. Uma patente foi criada e agora aguarda o interesse da indústria para o seu desenvolvimento.

O kit com o teste só deve estar disponível nos laboratórios em dez anos, e funcionaria com um acessório para o diagnóstico e também o acerto da medicação, porque ajuda a monitorar o efeito dos remédios. A pesquisadora Ljubica Tasic veio da Sérvia e há 12 anos é professora na Unicamp. Ela participa do trabalho e diz que o que falta é só ampliar a amostra de testes, com diferentes populações.

No mundo todo há pesquisas em andamento para tentar entender, controlar e mapear os transtornos afetivos. Até agora, o licenciamento do teste de sangue da Agência Inova Unicamp, em parceria com a Unifesp, já foi oferecido para oito empresas farmacêuticas nacionais e internacionais, e os pesquisadores aguardam as respostas.

Fonte: http://cbn.globoradio.globo.com/editorias/ciencia-saude/2016/09/24/NOVO-TESTE-DE-SANGUE-PODERA-DETECTAR-TRANSTORNO-BIPOLAR-E-ESQUIZOFRENIA.htm

SÁBADO, 24/09/2016, 06:00

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Cuidando do Cuidador (familiar)

As dificuldades e estresse de lidar com pacientes com transtornos psiquiátricos podem ser tantas que, muitas vezes, existe o risco do cuidador se deixar envolver e adoecer no processo é grande.   O psiquiatra Victor Pablo  falou sobre a importância de “cuidar do cuidador”.

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O núcleo familiar pode ser considerado um organismo que se organiza conforme as características dos seus indivíduos e pelas relações de afeto, repulsa, desejo e poder. Alterações drásticas dentro do núcleo tendem a desestruturá-lo, num primeiro momento, mas são seguidas por esforço para a sua reorganização.

Nos transtornos do desenvolvimento, como o autismo e o retardo mental, a relação familiar já parte de um princípio de cuidado e prevenção de danos desde a primeira infância, o que pode tornar o convívio menos desgastante. Porém, as grandes síndromes psiquiátricas e transtornos de dependência química afetam o indivíduo no início da vida adulta ou durante a terceira idade, o que frustra as expectativas da família em relação ao indivíduo, decorrente de sua perda de autonomia e sua inesperada dependência de cuidados específicos. Na evolução natural da crise para a fase crônica, um elemento familiar espontaneamente ocupa o papel de cuidador, muitas vezes a mãe, a filha, a esposa ou a secretária doméstica.

Perguntas, constatações e exclamações surgem com este problema: “Ele nunca mais voltará ao normal?”; “Estou no meu limite, vou enfartar!”; “Onde eu errei na educação desse moço?”; “Não sabia que era uma doença, por isso se agravou.”; “É culpa minha sim!”; “Ele não aceita o tratamento e não percebe que tem uma alteração mental. O que fazer?”; “Transtorno mental é para a vida toda?”; “Como cuidar também de mim?”; “Ele nunca se responsabiliza por si”; “Estou sozinha pra cuidar dele”; “Ele sempre vai ter mais crises?” – Mas, quais destas questões são justas com o cuidador? É preciso ter a real noção das causas e características do transtorno mental que acomete o paciente, para que o cuidador não se sinta culpado ou mesmo responsável por ele.

CUIDANDO DE SI

Por mais amor que tenhamos pelo ente adoecido existe um limite para exaustão relacionada ao ato de cuidá-lo.  Entre os indicadores de que o cuidador chegou ao seu limite no manejo do paciente estão: a fadiga fácil, a diminuição da habitual capacidade de relaxar ou sentir prazer, insônia, queda da produtividade profissional, isolamento social, sintomas dolorosos, desenvolvimento de sentimentos raiva, rejeição e conformismo, atuações de superproteção e até pensamento e comportamento suicida.

Em mais de oito anos de experiência realizando grupos de família, podemos colher algumas atitudes caseiras de cuidadores que enfrentam esta situação: “Oro a Deus e faço pilates”; “Namoro bastante e como torta de chocolate”; “Dou uma volta no shopping”; “Faço um retiro na fazenda”; “Mando ele para casa do pai por um tempo”; “Divido o cuidado com minhas irmãs”; “Tenho um psicólogo para mim”; “Faço acupuntura”; “Mando ele calar a boca e me deixar em paz por umas horas” – Entre outras.

Algumas atitudes podem ajudar no processo de lidar com o paciente:

  • Não confrontar o delírio e a agressividade
  • Postura acolhedora, porém firme nas recaídas das drogas
  • Monitorizar os sintomas sinalizadores de crise bipolar
  • Vigilância das medidas na Anorexia
  • Aprender a identificar atuações emocionais que reforçam comportamentos inadequados
  • Consultar o psiquiatra mesmo sem a presença do paciente

Ainda assim, a informação especializada e condução por algum terapeuta pode tornar a atitude do cuidador cuidar de si mesmo mais eficiente, pois sem isso acabaremos por ter duas pessoas a serem cuidadas, e não apenas uma.

Fonte: http://holiste.com.br/noticias/cuidando-do cuidador/#sthash.8Hlkg8YE.ubd9SXFP.dpuf

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Uma queda dentro de si. Eu enfrento a depressão

Eu enfrento a depressão: repórter de ZH relata como é a doença vista de dentro.

Após começar um longo tratamento e passar oito meses afastado do trabalho, Marcelo Monteiro conta sua história de luta contra a depressão.

Foto: Edu Oliveira / Arte ZH / Arte ZH

Foto: Edu Oliveira / Arte ZH / Arte ZH

Se você quer ajudar algum parente ou amigo diagnosticado com depressão, comece abrindo mão de alguns conceitos. E eu falo por experiência própria. Depois de bater no fundo do poço e voltar, pretendo contar o que vivi e senti em mais de oito meses afastado do trabalho e da vida social.

Para começar, depressão não é aquele sentimento melancólico que se abate em muitas pessoas nas tardes de domingo. Tampouco o luto pela perda de algum ente querido — este até pode ser o “gatilho” para uma crise, mas não a doença em si. O termo banalizado pelo uso cotidiano (“estou deprimido porque meu time perdeu”) difere bastante do conceito clínico. Este é o ponto! Dependendo da crise, a depressão pode ser muito mais profunda, angustiante, assustadora e dolorosa do que qualquer luto (familiar, sentimental, profissional etc.).

Passei por uma depressão grave. De início, as noites mal dormidas e a crescente apatia não chamaram a atenção. Como nunca tinha experimentado uma crise depressiva, demorei mais de três semanas para perceber que havia algo de muito errado. Ao voltar do trabalho, permanecia por horas deitado em frente à TV, sem comer, até a hora de dormir, o que também não era fácil. Passei a tomar medicamentos para induzir o sono, mas as noites pareciam cada vez maiores e aflitivas — cochilava uma hora, ficava duas acordado.

Com o passar dos dias, mais e mais sintomas foram tornando a minha rotina um exercício de resiliência e resistência. A tela branca do computador à espera do meu texto parecia transformar-se em um monstro. Com mais de 20 anos de jornalismo, me sentia sem condições de escrever dois parágrafos. Só queria fugir da Redação o mais rapidamente possível.

Foi assim que, durante várias tardes, busquei refúgio no estacionamento da empresa, onde ficava por horas no carro, tentando entender o que acontecia. Em outros momentos, saía a caminhar sem rumo pelas ruas próximas, procurando explicações para a angústia, a melancolia, a hipersonolência e a falta de concentração. Fiz tudo isso sem que ninguém soubesse — nem a família, nem meus melhores amigos. Tinha medo de que pudesse estar enlouquecendo.

Ao mesmo tempo em que isso se desenvolvia sem que eu suspeitasse de depressão (não havia histórico da doença na minha família), perdi o interesse por qualquer atividade, incluindo as que considero mais prazerosas, como sexo, música e futebol. Mais do que isso: tinha uma espécie de fobia social. Logo eu, o dono da churrasqueira, o cara que costumava convocar a turma para o happy hour, me isolei de tudo e de quase todos.

Coisas básicas como levantar da cama, tomar banho ou fazer uma compra no supermercado se tornaram tarefas difíceis e, muitas vezes, impraticáveis. Sentia saudade de mim. Naquele momento, eu não era o Marcelo que todos ao meu redor conheciam. Era outra pessoa.

Me sentia um corpo sem alma, um morto-vivo. Só encontrava algum alívio deitado em minha cama, com as luzes apagadas e vários travesseiros sobre a cabeça, tentando dormir e esquecer aquilo tudo. Buscava na escuridão do quarto uma saída para o túnel de trevas que me engolia. Quando adormecia, sentia-me livre. Meu maior pesadelo era estar acordado.

Nas três semanas em que convivi com a doença sem saber, no período de expediente de ZH, tive crises de gastrite e tendinite, problemas que em outras épocas chegaram a me tirar de combate, mas que estavam superados. As recaídas eram álibis para eu ir embora e me esconder em meu castelo de trevas e travesseiros.

Estive perto de surtar e não imagino o tipo de explosão que poderia resultar daquele estado de coisas. Só busquei ajuda quando me senti no fundo de um poço onde nunca estivera. Ainda assim, graças a muitos empurrões por parte de minha namorada, que assistia àquela derrocada com surpresa e preocupação. Assim como eu, ela também não me reconhecia.

À beira de um surto, o diagnóstico

Foto: Edu Oliveira / Arte ZH

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Como acontece na maioria das doenças, o diagnóstico precoce contribui para a eficácia do tratamento da depressão. Quanto antes iniciado, antes os pacientes começam a sentir algum alívio. Não há um exame clínico capaz de detectar a doença. O diagnóstico é feito a partir da análise do médico e dos relatos do paciente.

Em uma quinta-feira à tarde, saí da consulta com o clínico geral da empresa levando na mão uma receita de antidepressivo — o tipo que se costuma ministrar no início do tratamento — e a indicação de um psiquiatra para auxílio especializado. Estava tão desesperado para sentir alguma melhora que entrei na primeira farmácia que vi, pedi um copo d’água e tomei os primeiros comprimidos. Esperava um resultado rápido. Mal sabia que o martírio ainda iria se estender, de forma intensa, por quase dois meses.

Na segunda-feira seguinte, quatro dias após diagnóstico e ainda sem sentir qualquer efeito dos medicamentos — na melhor das hipóteses, os primeiros resultados aparecem 15 dias após o começo do tratamento —, precisava entregar os textos de uma extensa reportagem de quatro páginas. Pressionado e assustado, passei o sábado e o domingo dizendo a mim mesmo:

— Tu consegues, tu fizeste isto a vida toda, não vai ser agora que não vais conseguir.

Na hora H, com extremo esforço, despejei no computador a ideia de texto de abertura que esboçara mentalmente no fim de semana. Mas, assim que concluí a primeira parte da tarefa e percebi que havia ainda pelo menos outros três textos a serem escritos, entrei em pânico. O monstro da tela em branco estava de volta.

Não podia fracassar naquele momento. Ao mesmo tempo, porém, sabia que não tinha a menor possibilidade de conseguir terminar a reportagem. No auge do desespero, mandei um e-mail para o chefe imediato, o editor Leandro Fontoura, com o assunto “Urgente” e o texto “Preciso falar contigo agora”. Queria explicar-lhe o quadro, contar com a sua sensibilidade e sair correndo da Redação o mais depressa possível. A resposta não me satisfez: “Claro, só espera uns cinco minutinhos”. Eu não tinha cinco minutos! Em cinco minutos, surtaria.

Ansioso ao extremo, encaminhei o e-mail a outro superior, o chefe de reportagem da editoria, Jaime Silva, que conseguiu me atender de imediato e para o qual finalmente desabafei. Ele entendeu que era hora de eu ir para casa e cuidar da saúde. Outro repórter terminaria os textos. Antes de fugir — este é o verbo exato —, eu só teria de repassar minhas anotações ao colega. Assim, liberado por 15 dias, segui para o meu refúgio escuro, onde passaria as duas semanas seguintes levantando da cama apenas para comer e ir ao banheiro.

Terminado o prazo de afastamento inicial, fiz uma tentativa de voltar ao trabalho. Um desastre. Mesmo com a compreensão dos chefes, que me deixaram sem pautas ou prazos, entrei em pânico depois de apenas uma hora e meia na empresa. Novamente, pedi e fui liberado para ir embora. Desta vez, o afastamento seria maior, e o salário mensal, substituído pelo auxílio-doença do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Pelo menos havia um consolo: mesmo sem condições de trabalhar, não ficaria sem receber, o que poderia agravar minha tensão e, por consequência, a crise depressiva.

Não raro, pessoas lutam contra a depressão sem saber que estão deprimidas — como no meu caso. Por isso, é importante estarmos atentos a determinados comportamentos de quem está ao nosso redor. Por trás de sintomas psicológicos (apatia, angústia, isolamento, desesperança, falta de motivação e irritabilidade) e físicos (alterações do sono, cansaço exacerbado, perda ou ganho de peso, desinteresse sexual, dores inexplicáveis) pode estar “o grande mal do século 21″, como classifica a Organização Mundial da Saúde (OMS). No ano passado, a depressão atingia 350 milhões de pessoas em todo o planeta, mais do que a população dos Estados Unidos. No Brasil, eram cerca de 5 milhões de vítimas.

— Se a pessoa mudou o padrão de funcionamento, não quer mais sair, trabalhar, não atende ao telefone e diz que quer ficar sozinha, deve-se conversar com os seus familiares e alertá-los sobre o problema — recomenda o psiquiatra Nélio Tombini.

Força e paciência no tratamento

Foto: Edu Oliveira / Arte ZH

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A depressão é tratada à base de antidepressivos — hoje, há mais de 10 princípios ativos —, acompanhados ou não de psicoterapia. Como os medicamentos levam pelo menos duas semanas até começarem a mostrar resultados, é preciso ter força para suportar os sintomas durante o período inicial, para mim o mais crítico, uma vez que o mal-estar só crescia, e os remédios, aparentemente, não estavam fazendo efeito. Em meio ao sofrimento, busquei ainda um tratamento espírita e sessões de reiki e chakraterapia.

Também é preciso ter consciência de que cada caso é um caso, e nem sempre o psiquiatra consegue acertar de saída a combinação ideal de remédios e de dosagens para cada pessoa. Com base no relato do paciente, o médico realiza um processo visando à adequação dos medicamentos e das respectivas doses. Esta busca pode perdurar por meses até que a pessoa com a doença sinta-se bem. Por isso, é vital persistir com o tratamento, mesmo que a melhora não aconteça de imediato.

Para completar, alguns casos são acompanhados de outros transtornos de humor (além da depressão, também tive ansiedade e síndrome do pânico). De novo, vale frisar que a ansiedade, sob o viés clínico, não é a mesma que se tem antes de uma prova de concurso, e o pânico nada tem a ver com o eventual temor de ser assaltado — muitas vezes, é acompanhado de um inexplicável medo de morte repentina. Em ambos os sintomas, as palavras devem ser elevadas ao extremo.

— O pânico pode referir-se a uma sensação subjetiva de ansiedade súbita diante de uma situação específica (violência, má notícia etc.), o que se difere do termo “síndrome do pânico”, que é uma doença e, muitas vezes, ocorre em situações sem contexto específico — explica a psiquiatra Rosilda Antonio, presidente do Conselho Científico da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA). — Por exemplo, quando um indivíduo está assistindo à TV e, de forma súbita, passa a apresentar palpitações, tremores intensos, inquietação e medo de morte iminente.

Na equação de remédios e doses a ser resolvida pelo psiquiatra, há de se considerar ainda os efeitos colaterais. Além de alterações de sono e apetite, pode haver impactos gastrointestinais, redução da libido (nos homens, também retardo da ejaculação), sudorese, tremores, náuseas, tonturas, ganho ou perda de peso e até aumento da ansiedade.

Hoje, antes de dormir, tomo dois antidepressivos e um ansiolítico. Mensalmente, faço uma consulta com o psiquiatra, que segue na procura pela combinação ideal de medicamentos e doses. Além disso, tenho sempre à mão um ansiolítico, de uso sublingual, para um eventual surto de pânico ou ansiedade, que deve ser combinado a um ritual especial — 10 respirações lentas e profundas, tentando acalmar corpo e mente.

Esses fatores fazem com que a busca pela combinação de medicamentos e doses para determinado quadro depressivo se estenda por um longo período. No meu caso, depois de três meses, quando os sintomas depressivos já haviam diminuído, a ansiedade surgiu com força. Assim, no momento em que me livrava da tristeza profunda e da vontade de morrer, passei a conviver com aflição constante, aperto no peito, pernas inquietas, preocupação excessiva e alguns surtos de pânico.

Retomada em meio a lágrimas e chuva

Foto: Edu Oliveira / Arte ZH

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A solidão e a desesperança são queixas corriqueiras entre os pacientes deprimidos, geralmente ilustradas por frases do tipo “ninguém me entende”. Acostumados a usar o termo “depressão” para quaisquer episódios de baixo astral, parentes e amigos muitas vezes não entendem quando o paciente mostra-se depressivo na acepção clínica da palavra.

— A depressão se diferencia da tristeza pelo impacto que gera na vida da pessoa. Além disso, está sempre associada a outros sintomas — comenta o psiquiatra Marcelo Vilas Boas.

Vendo-se sem saída, 15 a cada cem pacientes não suportam a nuvem pesada sobre suas cabeças e decidem pôr fim à própria vida, segundo a OMS.

— O auge de uma crise depressiva é absolutamente incapacitante. O desespero e a desesperança são frequentes e, nesta situação, o risco de suicídio costuma estar presente. Esse risco por vezes só não é maior devido à adinamia, a inércia que impede inclusive que a pessoa saia da cama. Quando se chega a este patamar, trata-se de um quadro grave, que pode necessitar inclusive de internação hospitalar — aponta a psiquiatra Ieda Bataioli.

Embora em alguns momentos tenha considerado que morrer talvez fosse a melhor solução — foi este fato que me alertou para que algo grave pudesse estar acontecendo comigo —, jamais cogitei a hipótese de suicídio. Para minha sorte, desde o diagnóstico tive o apoio de familiares, amigos e colegas, que, a partir da noção de que não enxergavam a doença com a devida seriedade, procuraram se informar para saber como lidar com um depressivo. Isto foi determinante para a minha recuperação.

Aliás, durante o tratamento também não faltaram recomendações sobre fazer exercícios físicos aeróbicos (caminhar, correr, pedalar etc.), que também ajudariam no tratamento. A teoria, eu sabia. O difícil era a prática. Assim, depois de algumas semanas de medicação, busquei forças para sair da cama e caminhar sem rumo pelo bairro por cerca de uma hora, coisa que conseguiria repetir meia dúzia de vezes apenas.

Não foram raros os momentos em que o simples ato de vestir uma roupa adequada e pôr o pé na rua exigiram um esforço mental sobre-humano. Eu sabia que precisava sair de casa, queria sair e me exercitar, mas simplesmente não conseguia. Neste embate de sentimentos, houve uma noite chuvosa em que, tomado de extrema ansiedade — enquanto eu assistia à TV, minhas pernas pulavam e batiam no chão sem controle —, coloquei um calção e uma camiseta, calcei os tênis e saí a correr, com lágrimas misturando-se aos pingos de chuva, pensando: “O que está acontecendo comigo? Por que isso não passa logo?”.

A batalha durou mais de sete meses. Depois do primeiro trimestre, fui lentamente retomando a vida social, convivendo com os amigos mais próximos. Mas ainda seguia afastado do trabalho. Foi somente mais de meio ano depois do diagnóstico e do início do tratamento que finalmente comecei a me sentir capaz de sentar à frente de um computador, organizar o raciocínio e enfrentar o monstro da tela branca. Mais: retomei o gosto pela música, pelo futebol, pela vida. Voltei a me reconhecer. Como margem de segurança, só fui autorizado pelos médicos a voltar às atividades profissionais um mês e meio depois disso.

Mas as coisas não foram tão simples. No retorno ao trabalho, tive alguns dias difíceis e precisei sair antes do horário normal por não estar me sentindo bem. Hoje, cada dia que saio de casa e consigo cumprir minha jornada sem algum percalço é uma vitória a ser celebrada.

De tudo o que vivi nestes oito meses e meio, ficaram algumas lições. A primeira, que já me havia sido antecipada por um colega vítima de situação semelhante: jamais serei o mesmo Marcelo de antes. De fato, algo de muito forte e inexplicável ocorreu na minha mente, que mudou o meu jeito de encarar a vida. Mesmo recuperado, não posso dizer que estou 100% — quem sabe, 94% ou 95%. Talvez nunca consiga voltar à minha completa sanidade.

A segunda: tendo sobrevivido a uma espécie de martírio, hoje tenho condições — e precisarei estar atento — de identificar e prevenir novas crises. Há momentos em que sinto uma nuvenzinha pesada se aproximando. Então, me esforço para mudar de ambiente, de posição, de pensamento, de trilha sonora. Na maioria das vezes, tenho conseguido evitar as tempestades. Mas nem sempre. E é preciso estar pronto para esta possibilidade.

Por: Marcelo Monteiro - 19/08/2016

Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/rs/vida-e-estilo/vida/noticia/2016/08/eu-enfrento-a-depressao-reporter-de-zh-relata-como-e-a-doenca-vista-de-dentro-7299198.html

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Como ajudar quem você ama a lidar com a mania

apoioMuitas vezes a mania aparece como sendo o “patinho feio” da dupla mania e depressão. Enquanto a depressão é o centro das atenções, a mania fica ali, jogada para escanteio. Mas se alguma vez você já viu uma pessoa querida (ou até a si mesmo) durante um episódio de mania, deve saber bem que de passivo, quieto e manso, esse patinho não tem nada.

Faz oito anos que fui diagnosticada com transtorno bipolar. Passei por vários episódios de mania e depressão nesta época. E, para mim, a mania é de longe muito pior. Vivenciei cada sintoma da mania, um por um: falta de controle da impulsividade, gastança de dinheiro, hipersexualidade, pensamentos acelerados, insônia, criatividade, produtividade e grandiosidade. Na mania você se sente bem, mas ela não é boa para você. A pior parte são os gastos. Nestes os oito anos gastei em torno de US$ 30 mil dólares (aproximadamente R$100 mil reais) nos cartões de crédito e ainda estou pagando por isso. Como você pode imaginar, a incapacidade de controlar os impulsos, os gastos excessivos e a hipersexualidade podem levar a grandes estragos na vida de uma pessoa.

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Bom, então como você pode ajudar/apoiar alguém que você ama? Aqui vão algumas perguntas concretas e tarefas que você pode fazer.

Pergunte se ela está se alimentando. Pessoas em mania normalmente não se alimentam ou comem menos do que normalmente comeriam. Eles ficam muito distraídos com seus pensamentos acelerados ou com o mundo à sua volta para se alimentarem como devem. Então, passe um tempo com seu ente querido, especialmente durante as refeições. Boas perguntas a se fazer podem ser: Você comeu hoje? Quantas vezes? Você quer ir comer alguma coisa comigo agora?

Pergunte sobre seu sono. A falta de sono é um grande gatilho para a mania; não dormir o suficiente pode induzir a um episódio maníaco. A mania pode produzir um estado de produtividade elevada. Pessoas em mania sentem uma diminuição da necessidade de dormir, uma vez que a mania interfere com todos os planos produtivos que têm na cabeça. Algumas pessoas em mania dormem menos de duas horas por noite ou não nem dormem. Boas perguntas a fazer seriam: você dormiu afinal? Por quantas horas? Ou ainda: por que você não pede ao seu médico para prescrever algo para auxiliá-lo a dormir?

Ajude-a a lidar com suas emoções. Aqueles que sofrem de transtorno bipolar, quando não estão estáveis, normalmente oscilam entre os dois polos depressão e mania; daí o termo bipolar. Frequentemente, a mania pode levar à euforia tão facilmente quanto à irritabilidade ou à hipersensibilidade. Assim, boas perguntas a se fazer podem ser: Como você está se sentindo? Você está irritado(a), animado(a), distraído(a), agitado(a)? O que você pode fazer para lidar com todas as emoções que você está vivenciando? Você já tentou respirar profundamente para se concentrar e se acalmar?

Pergunte sobre sua impulsividade. A falta de controle sobre a impulsividade pode muitas vezes levar a resultados desastrosos, como largar um emprego, ter um caso extraconjugal, tirar férias extravagantes ou gastar dinheiro descontroladamente. Boas perguntas poderiam ser: Quanto dinheiro você tem gastado? Posso ficar o seu cartão de crédito? Você tem tido relações sexuais seguras?

Certifique-se que ela está atenta aos cuidados pessoais. Desenvolver maneiras para lidar com a própria condição é crucial tanto em momentos de crise como em tempos de estabilidade. Para manter o controle sobre a mania, é importante que a pessoa permaneça atenta e cuidadosa consigo mesma. Perguntas interessantes podem ser: Quais têm sido os seus cuidados pessoais no dia a dia? Você tem se exercitado para aproveitar um pouco da sua energia eufórica? Você tem meditado para acalmar os seus pensamentos acelerados? Você tem se lembrado dos seus cuidados básicos, como tomar banho, escovar os dentes, lavar os cabelos, vestir roupas limpas etc.?

 Autora: Krystal Reddick

Fonte: http://ibpf.org/blog/how-support-loved-one-dealing-mania.

Tradução livre/ABRATA.

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NÃO SÓ A TRISTEZA INDICA DEPRESSÃO, A IRRITABILIDADE TAMBÉM

Não apenas a tristeza contínua e intensa ou, melhor dizendo, o estado de ânimo sem esperanças, desanimado ou “no fundo do poço” é indicativo de depressão. De fato, a tristeza como sintoma pode não se manifestar em uma pessoa deprimida, sendo a sua prima irmã a irritabilidade.

Sim. Por mais estranha que esta afirmação pareça, uma pessoa deprimida pode não se mostrar triste, mas se manifestar de forma irritada, instável ou frustrada. As queixas somáticas, o mau humor, os incômodos, as dores físicas, as montanhas russas emocionais, etc. Tudo isso pode substituir a tristeza como sintoma de um problema emocional como a depressão.

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Portanto, poderíamos dizer que as manifestações de raiva, como a insensibilidade, a irritabilidade, a agressividade, e o comportamento “autoritário” são, às vezes, gritos que pedem para sair do buraco de escuridão no qual a depressão sufoca.

A irritabilidade como critério diagnóstico de depressão

Segundo critérios tanto do Manual Diagnóstico dos Transtornos mentais na última versão (DSM-5) como na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), um diagnóstico clínico de depressão pode ser realizado se a pessoa mostrar, entre outras condições, irritabilidade em vez de tristeza.

Isto é, se uma pessoa constantemente mal-humorada mostra uma ira persistente, uma tendência a responder aos acontecimentos com ataques de ira, insultando aos outros ou com um sentimento exagerado de frustração por coisas sem importância, pode estar afundada em um estado de ânimo depressivo patológico.

Em crianças e adolescentes pode se manifestar um estado de humor irritadiço ou instável mais que um estado de ânimo triste e desanimado. Isto precisa ser diferenciado do que se considera um padrão de “menino mimado”, com irritabilidade frente às frustrações.

Contudo, cabe ressaltar que do mesmo jeito que a tristeza por si só não é um critério suficiente de depressão e precisa de outras conotações para ser considerada patológica, o mesmo acontece com a irritabilidade.

Concretamente, para fazer um diagnóstico de depressão segundo os sistemas classificatórios citados, estas duas condições em separado são necessárias, mas não suficientes. Portanto, não se pode interpretar que basta estar triste ou irritado para estar deprimido.

A tristeza e a irritabilidade são estados emocionais tratados injustamente.

A tristeza e a irritabilidade, por si sós, são estados emocionais saudáveis, pois pretendem nos informar de que existe algo que nos incomoda e que está nos prejudicando. Eles somente se transformam em patológicos quando distorcem as nossas vidas e deterioram demasiadamente as nossas esferas sociais e profissionais durante muito tempo.

Em geral, é preciso ter cuidado com a irritabilidade porque ela pode nos levar a fazer qualquer coisa sem que consideremos as consequências negativas. Portanto, um estado persistente tingido desta instabilidade característica pode chegar a ser devastador.

Perder a linha com facilidade, fazer comentários desagradáveis, ser pouco tolerante, demonstrar impaciência, sentir nervosismo, manifestar agitação, ter reações inadequadas, começar a se afastar de certas pessoas por serem desagradáveis, etc. Tudo isso indica que alguma coisa não está bem na própria vida e que é preciso tomar medidas.

Portanto, a ira ou a irritabilidade que se manifestam quando padecemos de uma depressão é uma forma de externalizar o que se sente e não está sendo expressado. Podemos dizer que a pessoa deprimida tem a sensação de estar oprimida, de levar no pescoço um cachecol que pesa toneladas.

Isto a faz se sentir afundada, vulnerável, com a impressão de que esse cachecol não a deixa caminhar, dificultando a sua vida e descompensando o seu ânimo. Isto causa a instabilidade e a dificuldade que essas pessoas têm de realizar suas atividades no dia a dia.

Portanto, com a pouca força que esse tenebroso cachecol lhes permite ter, conseguem, quando muito, comer alguma coisa e dormir. Este é o peso da angústia, a qual se traduz em uma realidade asfixiante de tristeza ou irritação dependendo da pessoa e, obviamente, do momento.

Fonte: http://amenteemaravilhosa.com.br/irritabilidade-indica-depressao/

 

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